quinta-feira, 27 de junho de 2013

Quem não gosta de partido é ditadura. Hora de escolher: ou dar as mãos aos skinheads neonazistas ou abraçar a tolerância e a democracia

Como observado segunda-feira na passeata dos mais de 100 mil, os protestos populares em curso constituem terreno de ferrenha disputa política entre os próprios manifestantes. O confronto degringolou ontem, na despedida do outono. No país inteiro, militantes portando bandeiras, estandartes e símbolos de partidos políticos, centrais sindicais, entidades estudantis e movimentos sociais foram escorraçados por uma turba intolerante.
Em São Paulo, os principais executores dessa modalidade de repressão política foram os skinheads, os “carecas” neonazistas. Botaram para correr quem vestia camisa vermelha, rasgaram bandeiras de agremiações e arrancaram faixa do movimento negro. São racistas e homofóbicos. No Rio, essa turma agride, fere e mata gays.
Na Noite dos Cristais, em 9 de novembro de 1938, a escória nazista atacou os judeus por toda a Alemanha, insuflada por Adolf Hitler. No dia 20 de junho de 2013, foi a vez de ativistas de esquerda serem o alvo, no Brasil.
Não está em debate o mérito do partido X ou Y, no governo ou na oposição, menos ou mais comportado. Nem se um sindicato representa dignamente ou não seus filiados. Ou mesmo se os imensos protestos resultam de força ou fraqueza de uma ou outra sigla as opiniões são legítimas sobre todas essas questões. O que se discute é o direito democrático de seus integrantes participarem das manifestações.
Desde os primeiros atos do Movimento Passe Livre, duas semanas atrás, os partidos tiveram direito de estar presente. No Rio, foi assim há quatro dias. Se outros chegaram ontem, é também seu direito, porque inexiste veto dos organizadores dos protestos, onde se sabe quem são eles.
Como se disseminou um robusto sentimento antipartidos, sobretudo na classe média, os neonazistas capitalizam frustrações e comandam os ataques. É legítimo rejeitar siglas, tomar distância delas e derrotá-las nas urnas. Impedir sua expressão é mania de ditaduras. Além de ser irônico que determinadas agremiações, cuja militância foi decisiva na construção do movimento contra o reajuste das tarifas, sejam agora reprimidas.
Não deixa de ser curioso: quem protesta contra algumas covardias policiais agride covardemente quem não concorda com suas ideias. A faixa “Meu partido é meu país” é tão legítima como a do partidinho mais mequetrefe. Todos têm direito de se manifestar.
Em 1935, o presidente Getulio Vargas colocou na ilegalidade uma frente de esquerda, a Aliança Nacional Libertadora. Com o golpe de 37, instaurando a ditadura do Estado Novo, baniu o centro, a direita e a extrema direita. Em 47, a Justiça cassou o registro do PCB, e no ano seguinte seus parlamentares, eleitos pelo voto popular, tiveram os mandatos cassados.
A ditadura implantada em 1964 aboliu os partidos do regime democrático restabelecido em 1945-46, inclusive aqueles, como UDN e PSD, que colaboraram para a deposição do presidente constitucional João Goulart, cuja base tinha entre outros o PTB e o PSB.
Durante aquele tempo de trevas, a ditadura descaracterizou o Congresso, impondo cerca de uma centena de cassações de deputados e senadores do MDB. Triturou a Frente Ampla de Jango, Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek.
As ditaduras, do Estado Novo à de 1964-85, mataram militantes que batalhavam pelo direito de existência e expressão de partidos. Eles são mártires da democracia e do país.
A União Nacional dos Estudantes, outro alvo da malta, teve um presidente, Honestino Guimarães, assassinado pela ditadura. A ditadura que matou e sumiu com o corpo do líder estudantil, em 1973, impedia a livre organização partidária. Trucidava quem queria se organizar.
Essa mesma ditadura sofreu uma derrota dura com a formação da CUT, em 1983. As outras centrais sindicais são igualmente legais e legítimas, simpatizemos ou não com elas. Em 1979, o operário Santo Dias foi assassinado com um tiro da polícia. É a memória de gente como ele que é insultada quando fascistoides proíbem os sindicalistas de se manifestar. Como no Rio, rasgando seus panfletos.
É impressionante que certos analistas políticos vibrem com a pancadaria contra bandeiras partidárias, mas não apresentem uma só restrição às ações neonazistas. Impressiona, mas não surpreende: eles apoiaram a ditadura, a intolerância está em seu DNA.
Condenável é partido aparelhar movimentos e protestos, impondo sua agenda particular às reivindicações coletivas. Isso é partidarismo. Mas a presença de agremiações políticas é uma tradição democrática, e muito o Brasil deve a elas. Esqueceram que na Campanha das Diretas (1984) e no Fora, Collor (92) as bandeiras tremulavam nos comícios? Nos palanques, uniam-se dirigentes de partidos para todos os gostos e muita gente que não ia com a cara deles, mas estava unida para melhorar o Brasil.
Os que aplaudem a massa reprimindo militantes, tendo na “vanguarda” neonazistas, têm partido, sim: o Partido da Intolerância, o Partido do Ódio. Já vimos esse filme.
Os provocadores que espalham a baderna, fração ultraminoritária das manifestações, não são os militantes partidários, mas os skinheads, alguns ditos punks e outros ditos anarquistas, que de anarquistas nada têm. Os militantes partidários não promoveram vandalismo, mas foram alvo deles - tomar, rasgar e queimar bandeira é ato de vândalo.
Os protestos em curso, que arrancaram bravamente a redução das tarifas dos transportes públicos, exibem algumas características novas. Uma delas é que reúnem no mesmo evento quem, em 1964, participaria da Marcha da Família, de direita, e em 1968, da passeata dos 100 Mil, dirigida pela esquerda, contra a ditadura. Daí que o ódio dos neonazistas encontre ressonância.
Quem não tem legitimidade para participar dos atos são essas facções que ontem agrediram os militantes políticos, sindicais, estudantis e sociais. São os herdeiros da Ação Integralista Brasileira, a tradução tupiniquim para o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini, na década de 1930.
É legítimo amar e odiar os agredidos de ontem. Nada mais natural do que achar que um e outro são oportunistas o que não falta no mundo é oportunista. Mas quem não gosta de partido é ditadura. 
Mário Magalhães 

Deputados aprovam royalties do petróleo para educação e saúde

A matéria foi aprovada na forma de um substitutivo do deputado André Figueiredo (PDT-CE) ao Projeto de Lei 323/07, que precisa ser votado ainda pelo Senado.

A Câmara aprovou, na madrugada desta quarta-feira (26), o projeto que destina os recursos dos royalties do petróleo à educação pública, com prioridade para a educação básica, e à saúde. O texto prevê o uso de recursos dos contratos já existentes, contanto que os poços entrem em operação comercial após 3 de dezembro de 2012. Isso abrangeria vários contratos atuais de blocos de exploração que ainda não chegaram a essa fase, em que o poço começa a produção em escala comercial.
Para a educação, serão destinados 75% dos recursos; e 25% irão para a saúde, segundo emenda do líder do DEM, deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO).
A base usada pelo relator foi o Projeto de Lei 5500/13, do Executivo, que tramita com urgência constitucional e trancava os trabalhos. O texto do governo previa o uso somente dos royalties e da participação especial dos contratos assinados depois dessa data, quando ocorreu a publicação da nova lei sobre divisão dos royalties entre os estados.
Essa lei (12.734/12) está pendente de decisão final do Supremo Tribunal Federal (STF) quanto à constitucionalidade da nova divisão entre os estados com base nos critérios de rateio dos fundos de participação dos municípios (FPM) e dos estados (FPE).
Na mesma data, foi publicada a Medida Provisória 592/12, que já destinava todos os recursos dos royalties à educação, mas também apenas quanto aos contratos novos. "Com o substitutivo, poderemos valorizar mais os professores com recursos a curto e médio prazo, sem precisarmos esperar dez anos para usar o dinheiro do pré-sal", afirmou o relator.
Para Caiado, prevaleceu o bom senso. "Não fizemos um repasse indefinido do Fundo Social a essas áreas e resgatamos o compromisso dessa Casa para atender a educação e também a saúde", afirmou.
Cálculos do relator indicam que o total de recursos à disposição dessas áreas aumentaria de R$ 25,8 bilhões para R$ 335,8 bilhões ao longo de dez anos (2013 a 2022).
Segundo ele, isso seria possível graças aos contratos mais antigos que irão começar a produzir comercialmente nos próximos anos sob qualquer tipo de contrato: concessão (Lei 9.478/97), cessão onerosa à Petrobras (Lei 12.276/10) ou de partilha de produção (Lei 12.351/10).
Em todos os casos, trata-se da lavra apenas na plataforma continental, no mar territorial ou na zona econômica exclusiva.
Fundo Social
Outra fonte de recursos para a educação prevista no relatório é o Fundo Social do pré-sal, criado pela lei que regulamentou a exploração do petróleo nessa camada geológica.
De acordo com o projeto do governo, seriam usados para a educação 50% dos rendimentos desse fundo, para o qual devem ser destinados os royalties e a participação especial da União referentes ao petróleo do pré-sal extraído sob o regime de concessão.
O substitutivo de Figueiredo determina o uso de 50% de todos os recursos recebidos pelo fundo nesse setor e não apenas metade de seus rendimentos. Entretanto, nas últimas negociações antes da votação, ele impôs um limite ao uso desse dinheiro.
Ele deverá ser usado até que sejam alcançadas as metas do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê o alcance de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) aplicados na educação.
André Figueiredo recomendou a aprovação de emenda que prevê percentual de recursos para a saúde. Atualmente, segundo a lei, o dinheiro do fundo poderá ser usado também para projetos nas áreas de cultura, esporte, saúde pública, ciência e tecnologia, meio ambiente, e mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Sobre o uso do capital principal do fundo, o líder do governo, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) alertou que isso pode comprometer esse fundo. "Eu temo pela proposta", disse, lembrando ainda que a matéria pode ser considerada inconstitucional por redirecionar recursos vinculados a contratos antigos.
Área de exploração
Também deverão ser destinadas à educação as receitas conseguidas pela Petrosal em negociações com a empresa que explora blocos cuja jazida se estenda além da área concedida para outras não concedidas ou não partilhadas. Esse procedimento é conhecido como individualização da produção.
A Petrosal é uma estatal criada para gerenciar os contratos sob o regime de partilha da produção, no qual a União fica com parte do petróleo produzido para venda posterior.
Adicionalmente, André Figueiredo propõe que o excedente de óleo da União seja de, no mínimo, 60% da parcela que sobrar depois de deduzidos os custos calculados em óleo e os royalties.
Na lei atual, cabe ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) definir os critérios para encontrar esse excedente e o percentual mínimo.
Pesquisa e lavra
Para viabilizar a votação, André Figueiredo concordou em retirar artigos que previam uma última fonte de recursos para a educação: a decorrente de contratos de prestação de serviços que seriam assinados pela União com a Petrobras para a realização de atividades de pesquisa e lavra em áreas do pré-sal.

Fonte: Agência Câmara e Jornal do Brasil  

terça-feira, 25 de junho de 2013

67% das crianças não sabem fazer contas básicas, aponta pesquisa

Mais da metade das crianças brasileiras que cursam 3º ano do ensino fundamental estão defasados em leitura. Em matemática, a situação é ainda pior: 67% das crianças não conseguem fazer contas básicas como deveriam na sua idade.
Os resultados são da Prova ABC, da ONG Todas pela Educação, divulgados nesta terça-feira (25).
De acordo com a avaliação, aplicada no final do ano passado com 54 mil crianças do 3º ano do ensino fundamental privado e público, 55% dos pequenos não têm proficiência adequada em leitura.
E, pior: quase 25% das crianças avaliadas em todo o país não demonstram habilidades elementares como as de localizar informação num texto. Por exemplo, não conseguem dizer quem é o personagem principal ou identificar o tema de um texto curto.
Os dados, claro, variam regionalmente. Em São Paulo, 60,1% das crianças são proficiências em leitura. Já em Alagoas, Estado com pior avaliação, esse índice cai para 21,7%.
"Regiões mais pobres tendem a ter índices piores. Mas isso não pode servir de justificativa. Temos de ter foco nas crianças das regiões mais pobres", analisa Priscila Cruz, diretora executiva do movimento Todos pela Educação.
"Uma das principais mensagens da Prova ABC é a desigualdade educacional que começa logo no início do fundamental. Essa desigualdade tende a se aprofundar nos anos seguintes", diz Cruz.
De acordo com a especialista, o governo federal poderia suplementar mais ainda os estados mais pobres.
BOA NOTÍCIA
Os dados deste ano não são comparáveis com anos anteriores, pois foram as provas foram aplicadas em anos letivos diferentes. Mesmo assim, é possível notar algumas boas notícias.
Neste ano, o destaque é para Estado do Ceará. Os índices cearenses estão mais perto dos nacionais do que dos números do Nordeste.
No Ceará, 42,1% das crianças têm leitura adequada, por exemplo. O índice brasileiro é 44,5%. No Nordeste é 30,7%. "O Ceará tem investido muito em educação. É uma experiência positiva", analisa Cruz.
Esta foi a última edição da Prova ABC A partir deste ano, o governo federal terá um sistema próprio, a ANA (Avaliação Nacional da Alfabetização), aplicada nacionalmente com alunos do 3º ano do ensino médio.
A prova, explica a assessoria de imprensa do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), do MEC, avaliará alfabetização e matemática.
"A gente cumpriu o objetivo, que é de chamar atenção do governo que é importante olhar para a alfabetização", diz Cruz. 

SABINE RIGHETTI 

Diálogo Social como ferramenta da luta dos trabalhadores

Durante a 102ª Conferência Internacional do Trabalho, realizada pela OIT de 5 a 20 de junho, em Genebra/Suíça, a CUT pôde apresentar sua experiência de luta pelos trabalhadores
A 102ª Conferência Internacional do Trabalho, que acontece de 5 a 20 de junho, em Genebra/Suíça, está sendo, sem dúvida nenhuma, um acontecimento de real importância nas discussões contemporâneas sobre o mundo do trabalho. A OIT – Organização Internacional do Trabalho acerta mais uma vez por propor um debate amplo observando os atuais dilemas com um enfoque propositivo de construção de estratégias que garantam os direitos da classe trabalhadora e que apontem saídas para a crise mundial, dentro da perspectiva do trabalho e de suas relações de produção econômica e social.
A atual crise mundial do capitalismo coloca em xeque não apenas a estrutura na qual é moldado todo o modo de produção e de distribuição de riquezas, mas também transcende ao caráter social deste processo, como exemplos, a hierarquização das relações entre capital x trabalho, os mecanismos autoritários de manutenção do status quo das classes dominantes, as diferenças entre Nações desenvolvidas e em desenvolvimento, entre outros, além do próprio papel do Estado. Uma crise que agrava a miserabilidade de um contingente cada vez maior de trabalhadores por todo o mundo.
A própria agenda da Conferência, ampla em sua elaboração, aponta os desafios mais urgentes para os países e a classe trabalhadora, quais sejam: emprego, o crescimento e o progresso social, o trabalho infantil doméstico, o emprego e a proteção social em um mundo em processo de envelhecimento, o fortalecimento do diálogo social entre governos, empregadores e trabalhadores e a promoção de empregos verdes e decentes.
 Uma gama de assuntos centrados em três principais eixos: “Emprego e proteção social no novo contexto demográfico”; “O desenvolvimento sustentável, o trabalho decente e os empregos verdes”; e “Diálogo Social”. Este último, em particular, cabe aqui uma reflexão maior, sem que isto coloque os demais itens em situação de menor importância.
Está posto pela organização da Conferência o debate sobre “as tendências, os desafios e asoportunidades relacionadas com os atores e as instituições de diálogo social através de uma avaliação das diversas realidades e necessidades que existem no contexto da globalização”.
Cabe, então, uma breve contextualização sobre o conceito de “Diálogo Social” estabelecido pela OIT. Trata-se de uma condição que não se exclui os antagonismos inerentes às relações de disputa presentes na sociedade, mas que, a partir deles, os atores sociais buscam fazer valer seus direitos e influenciar nas decisões, de forma a estabelecer certo equilíbrio entre os interesses colocados no processo, seja no campo institucional, seja no mundo do trabalho.
Assim, de forma propositiva, trabalhadores, governos e empregadores devem dialogar sobre as decisões a serem tomadas no âmbito do emprego e do trabalho, englobando todos os tipos de negociações, consultas e trocas dentro da perspectiva do desenvolvimento econômico e social. Um diálogo que pode ser bipartite (trabalhadores e empregadores) ou tripartite (quando inclui governos). 
O “Diálogo Social” tem sido um princípio fundamental em quase todas as Convenções da OIT. Para que se consolide um processo verdadeiramente eficaz entre as partes, é necessário que se estabeleça o debate garantindo os direitos fundamentais no trabalho, com liberdade sindical, de associação e de negociação coletiva; igualdade de renumeração e oportunidades entre homens e mulheres, combate ao trabalho infantil e ao trabalho escravo.
Ainda no campo da negociação tripartite, destaca-se a fomentação do pleno emprego, observação das políticas de Seguridade Social e saúde, no campo empresarial e nacional, respeito ao trabalhador migrante, política de salário mínimo e de seguridade social ampla. Esta forma é apresentada pela OIT como uma das soluções para o enfrentamento da crise por meio de políticas e soluções justas. São nestes momentos que os mecanismos de “Diálogo Social” e negociação coletiva são imprescindíveis para o encontro de soluções que não afetem negativamente os trabalhadores nem a sociedade.
Uma reflexão sobre o caso brasileiro
Dentre os atores sociais ligados à classe trabalhadora brasileira, destaca-se a CUT - Central Única dos Trabalhadores como uma central sindical democrática, combativa e verdadeiramente representante dos trabalhadores. A CUT, criada em 1983, ainda sob o domínio da ditadura militar que ocorreu de 1964 a 1985 no Brasil, tem como compromisso a defesa dos interesses dos trabalhadores da cidade e do campo, dos setores público e privado, ativos e inativos. Hoje a Central está presente em todos os ramos da atividade econômica do País, com mais de 3,4 mil entidades filiadas.
A trajetória da CUT, desde o processo que resultou em sua criação, pautou-se pela construção e consolidação de um sindicalismo classista, autônomo e democrático. Está entre suas diretrizes a luta em defesa da liberdade e autonomia sindical. Para tanto, “prega a independência frente ao Estado, governos, patronato, partidos e agrupamentos políticos, credos e instituições religiosas e a quaisquer organismos de caráter”.
O fortalecimento da democracia, o desenvolvimento com distribuição de renda e valorização do trabalho são marcos estratégicos da CUT. A luta pela universalização dos direitos, bandeira histórica, é cotidianamente reafirmada com a participação ativa da Central na construção de políticas públicas e afirmativas de vários setores e segmentos da sociedade. Estas ações têm garantido e ampliado a participação da CUT em vários espaços importantes de negociação.
Além de salário, emprego e estrutura de trabalho, o movimento sindical progressista cobra dos governos mecanismos de participação efetiva nas decisões sobre políticas públicas e garantia de financiamento, consolidando, desta forma, o Estado como prestador de serviços públicos de qualidade para a população.
A CUT tem buscado nestes seus 30 anos de existência ampliar permanentemente as formas de participação e de diálogo da classe trabalhadora dentro da estrutura social brasileira e internacional. Como interlocutora dos trabalhadores, pôde acompanhar a evolução das relações entre governo federal, a partir das vitórias de governos democráticos e populares iniciadas em 2003, mas não poupa esforços para que esta relação, hoje mais democrática e transparente, possa acontecer nas demais esferas de governo.
Esta nova correlação de forças permitiu avanços nos processos de negociação trabalhistas e na adoção, por parte do governo brasileiro, de políticas públicas fundamentais para a classe trabalhadora. O papel de interlocução não elimina o caráter reivindicatório e de luta deste processo, nem tampouco elimina as possíveis diferenças de opiniões entre governo e trabalhadores.
Em seu texto base do 11º Concut, a CUT deixa claro seu projeto: “Consideramos uma concepção de desenvolvimento tendo como centro o trabalho, a ampliação do papel redistributivo do Estado e lutamos por uma política econômica ousada que, articulada às demais políticas públicas, oriente o país a alcançar elevadas taxas de crescimento com sustentabilidade ambiental; amplie o papel redistributivo do Estado; eleve a qualidade da educação; reduza a pobreza; a desigualdade de renda; as disparidades regionais e implemente um forte sistema de proteção social.” (...).
A Seguridade Social, vista nesta concepção de luta, está circunscrita dentro do conceito de direitos universais e, consequentemente, também da práxis social que possibilita a constituição e a consolidação destes direitos. É um direito de todos o acesso à Seguridade e um dever do Estado prover as condições estruturantes para sua realização.
A Convenção 102 da OIT, de 1952, já dava as bases para a Seguridade neste sentido de direito humano, assim como atribuía as funções do Estado para sua manutenção. No modelo defendido pela CUT e pelo conjunto dos trabalhadores, a Seguridade Social se consolida na universalização, oferta de serviços pelo Estado e manutenção dos direitos trabalhistas e sindicais.
Nos últimos anos, o governo brasileiro tem adotado posturas progressistas ao se tornar signatário de Convenções da OIT. As mais diretamente ligadas ao campo de lutas do serviço público são as Convenções nº 151, sobre “Direito de Sindicalização e Relações de Trabalho na Administração Pública”, e de nº 154, sobre “Fomento à Negociação Coletiva”. O movimento sindical pôde comemorar o fato do Brasil se tornar signatário da Convenção 151 da OIT.
Uma conquista histórica conseguida com muita mobilização dos trabalhadores. Agora, como consequência deste avanço, está em pauta a regulamentação desta medida. Em março deste ano, a presidenta da República, Dilma Roussef, assinou o Decreto 7.944 que promulga esta Convenção e a Recomendação nº 159 da OIT sobre as relações de trabalho no serviço público.
A CUT mantém a bandeira da negociação coletiva no serviço público envolvendo as três esferas de governo – Federal, Estaduais e Municipais – desde o início, com a finalidade de garantir para os servidores os mesmos direitos dos trabalhadores que atuam na iniciativa privada.
Os governos devem compreender que as novas relações de trabalho pressupõem ampliação de direitos, e um deles, considerado básico, é o da negociação coletiva para o funcionalismo. Esta é uma ferramenta importante de mobilização, gestão e de qualificação do serviço público. Sua regulamentação contribuirá com a democratização do Estado, por destacar o direito à sindicalização e definição das condições de emprego no serviço público.
Desafios do Diálogo Social
O diálogo e a negociação são princípios que a Central sempre defendeu. Na esfera do serviço público é necessário que os governos entendam e criem os mecanismos necessários para o processo de negociação coletiva. Para tanto, é preciso ver o servidor como agente capacitado para implementar e executar as políticas públicas dentro dos padrões reais de exigências que permitam um atendimento cada vez mais qualificado os usuários dos sistemas de serviços públicos.
No entanto, para haver "Dialogo Social" é preciso, no caso da negociação coletiva no serviço público, observar algumas primícias:
a)    investir em formação, dando condições para o aprimoramento permanente dos servidores públicos. Não desprezar aqueles que possuem conhecimento prático e desempenham seu papel com todo o profissionalismo e capacitação técnica que o serviço público merece;
b)    uma nova postura deve ser assumida pelos governantes. Cabe aos gestores públicos compreenderem o caráter técnico e profissional da relação com os servidores. Na prática, são empregadores como os do setor privado, com deveres e obrigações frente aos trabalhadores. Pelo fato de cada gestão ser passageira, não podemos deixar de lado os direitos dos trabalhadores.
A partir desta postura, será possível construir um canal de diálogo que represente verdadeiramente uma ação de comunicação eficiente entre as partes envolvidas. O que vimos hoje, em sua grande maioria, são práticas de “conversação” e não de “negociação” efetiva entre os trabalhadores e os gestores públicos.
Para que haja de fato um Dialogo Social é preciso que os governos e empregadores reconheçam, respeitem e, principalmente, cumpram as Convenções da OIT relacionadas a esta temática. Como exemplo, temos as seguintes Convenções: nº 87 (Relativa à Liberdade Sindical e à Proteção do Direito de Sindicalização), nº 98 (Relativa à Aplicação dos Princípios do Direito de Organização e de Negociação Coletiva), nº 144 (Relativa a Consultas tripartites sobre normas internacionais do Trabalho); nº 151 (Relativa à Proteção do Direito de Organização e aos Processos de Fixação das Condições de Trabalho da Função Pública) e nº 154 (sobre o incentivo à Negociação Coletiva).
Há ainda as Recomendações da OIT, que são ferramentas de destaque para a discussão deste tema. São elas: nº 91 (sobre contratos coletivos); nº 92 (sobre conciliação e arbitragem voluntária), nº 113 (sobre consulta e colaboração entre as autoridades públicas e as organizações de empregadores e trabalhadores nos ramos de atividade econômica e no âmbito nacional); nº 152 (sobre consultas tripartites para promover a aplicação das normas internacionais de trabalho e as medidas nacionais relacionadas com as atividades da OIT); nº 159 (sobre procedimentos para determinar as condições de emprego na administração pública) e nº 163 (sobre o fomento da negociação coletiva).
Portanto, para que de fato possamos instalar o Dialogo Social, tendo como premissa a Negociação Coletiva, é preciso observar o cumprimento das normas e Convenções que já temos ratificadas em nossos países, sem deixar de incluir o trabalhador como ator ativo e não passivo na tomada de decisões.
Lembrando que nesse dialogo social/negociação coletiva pressupõe-se que serão os interesses dos trabalhadores que deverão estar colocados no centro das discussões. O acúmulo das lutas dos trabalhadores já apontaram pontos desta pauta. As reflexões sobre o Trabalho Decente mostram caminhos que já foram diagnosticados como princípios importantes para nossas lutas. Assim, temos os principais eixos destas discussões: condições de trabalho, relações de trabalho, redução das desigualdades, fixação de salários, aumento de salários, acesso ao emprego, demissão ou permanência no emprego, previdência, férias, folga, aposentadoria, saúde do trabalhador, entre outros. 

Escrito por: Maria Aparecida Faria, secretaria geral adjunta da CUT Nacional


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Nota da CUT em defesa da democracia

A Central Única dos Trabalhadores manifesta seu total apoio ao Movimento Passe Livre que, por ter alcançado o objetivo inicial de revogar o reajuste das tarifas de transporte coletivo, tomou a decisão nesta sexta-feira (21) de não mais convocar os atos, que liderou de forma legítima, levando milhares de pessoas às ruas nos últimos dias.
A CUT repudia as ações violentas de grupos contrários à democracia que, de forma oportunista, levaram às ruas pautas conservadoras que apontam para o retrocesso, o preconceito, a intolerância e estimulam o ódio de classe.
Diante disso, a CUT orienta seus Sindicatos, Federações, Confederações e militantes a defender de forma pacífica e organizada, como sempre fizemos, bandeiras históricas fundamentais para a democracia e o desenvolvimento do país, como transporte, educação e saúde públicos de qualidade, trabalho decente, fortalecimento da democracia; reforma política que fortaleça os partidos, a participação popular e a transparência e democratização nos meios de comunicação.
Em nota divulgada nesta sexta-feira (21), o MPL comemorou a vitória popular da revogação do reajuste e lamentouos episódios isolados de violência, desencadeados por diversos grupos que não pertencem ao Movimento. Em todas as declarações, os líderes ressaltam que o MPL é um movimento social apartidário, mas não antipartidário. A nota repudia ações violentas contra as organizações partidárias e sindicais que participaram dos atos em todo Brasil.
A CUT, ao longo de seus 30 anos, sempre esteve nas ruas e foi uma das principais protagonistas das transformações na história recente de nosso país, lutando por democracia e por uma sociedade justa. A derrota da ditadura e a democracia que conquistamos indo para as ruas se devem à organização e à responsabilidade que os movimentos social e sindical sempre tiveram. É incontestável que não há democracia sem partidos, sindicatos e instituições livres. É a política que organiza a sociedade.
Na próxima terça-feira (25), a CUT se reunirá com as demais centrais sindicais, representantes legítimas da classe trabalhadora, para definir uma ação conjunta em relação às mobilizações. Não podemos permitir que grupos reacionários direcionem as manifestações para uma agenda conservadora, contrária aos interesses da classe trabalhadora e da sociedade. Esses grupos demonstram a clara intenção de desestabilizar o projeto de desenvolvimento que defendemos e que ajudamos a construir, tentam impor o retrocesso às conquistas e aos avanços sociais.
A CUT continua nas ruas em defesa da pauta da classe trabalhadora e da democracia, contra o conservadorismo. Repudiamos todo e qualquer retrocesso!
Objetivo das legítimas manifestações em defesa da redução das tarifas de transporte coletivo foi alcançado. CUT repudia ações de grupos isolados contrários à democracia

Escrito por: CUT Nacional


São Paulo, 21 de junho de 2013.

VAGNER FREITAS                                       SERGIO NOBRE
Presidente Nacional da CUT                    Secretário-Geral Nacional da CUT  

Manifestações pelo país

Folha de São Paulo

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Direita radical tenta pegar carona nos protestos pela redução da tarifa

Durante o quinto e o sexto protesto contra o aumento das tarifas do transporte público em São Paulo, foi notável a heterogeneidade de reivindicações. A pauta central do Movimento Passe Livre (MPL), que pede a redução das tarifas, parece estar perdendo a centralidade. Surgem em meio às manifestações cartazes com dizeres como: “Contra a corrupção” e “Impeachment à Dilma”.
Na segunda-feira (17) e na terça-feira (18), a reportagem do Brasil de Fato constatou uma sensível diferença nos atos comparando-os com a semana anterior. Os gritos não eram os mesmos puxados pelos movimentos sociais. As bandeiras dos partidos não foram mais estiadas. Muitas, inclusive, foram impedidas de serem levantadas por um grupo de pessoas que pediam “Sem partido!”, com bandeiras do Brasil nas mãos e cantando o hino nacional.
A reportagem passava ao lado da prefeitura de São Paulo quando presenciou um grupo de pessoas que segurava uma bandeira vermelha de um movimento sem-teto. Um rapaz, de aparentemente 27 anos, ao ver a bandeira, disse irritado: “que merda é essa? Só faltava ter comunista aqui agora”.
Na segunda-feira, militantes da Juventude do PT quase foram agredidos por tentarem erguer a bandeira do partido. Já pessoas ligadas ao PSTU não conseguiram recuar e foram violentados por alguns manifestantes. Presente nos atos, o cientista social Bruno Casalotti lembra que ser contra os partidos é corroborar com o fascismo. "A existência de partidos é fundamental para a garantia da democracia. É ótimo que eles estejam nos atos, inclusive a juventude do PT", destaca.
União popular é o que conclama Casalotti. "Quer pressionar o Haddad a baixar a tarifa? Vamos fazer isso junto com a juventude do próprio partido dele que temos mais força! PSTU, PSOL, todos têm o direito de estarem nos atos e levantarem suas bandeiras", reforça.
Somando-se ao debate, o professor de sociologia e história do Instituto Federal de Educação e Ciência, Kennedy Ferreira, ressalta que em uma manifestação democrática cabem todas as bandeiras, "em especial aquelas que sempre estiveram ao lado dos mais desfavorecidos".
Direita radical
Fatos inusitados não presenciados nas primeiras manifestações também foram registrados pelo cientista social Bruno Casalotti. Ele disse ao Brasil de Fato que, enquanto caminhava junto a manifestação, uma menina, de aproximadamente 17 anos, entregou dois panfletos a ele com dizeres do tipo “Prisão rural perpétua, não queremos sustentar bandidos” ou “eliminação da idade mínima penal, independentemente da idade, o infrator deve ser punido". Ao ser questionada sobre a origem dos panfletos, ela respondeu: “um cara me deu esse bolinho pra distribuir”.
Casalotti considera que os dizeres presentes nesses panfletos são pautas da direita mais reacionária do Brasil. “A existência de um panfleto como esse demonstra que há setores que estão interessados em desvirtuar as motivações iniciais dos protestos, e o pior é que são setores escusos, porque nem assinar o panfleto eles assinaram”, reforça. 

Escrito por: José Francisco Neto, Brasil de Fato