quinta-feira, 10 de março de 2011

Quesitos nota deeeeeez!



Blog de Josias de Souza

TRÊS MOSQUETEIROS

Muito mais do se pensa, a forma como elegemos nossos parlamentares influencia na conquista de boas políticas públicas.
Para se efetivarem, é preciso que as ideias ocupem o lugar certo. Isso exige três condições básicas, pouco discutidas: sistema de implantação, meio ambiente e alma do negócio.
Sistema de implantação é o método, a dinâmica do processo que transforma a ideia em realidade. O carro-chefe é o gerenciamento. É a música.
O ambiente é o meio em que ela se desenvolve. São os instrumentos da orquestra. O ponto principal são as normas que explicitam como as ideias viram políticas e a burocracia. As regras de andamento das coisas. O destaque são as relações entre os poderes. Como um projeto percorre suas etapas dentro dos poderes estabelecidos. Tratamos disso na coluna Relações com Freios e Contrapesos, de 17/2.
A alma do negócio é o clima existente para a implantação da ideia. É a emoção com que os músicos tocam. São vários componentes que envolvem o momento do projeto e acabam por acelerá-lo ou retardá-lo. A urgência cobrada pela sociedade, normalmente transmitida pela mídia, é o maior catalisador desse processo. Quanto mais indignada e pró-ativa a sociedade, mais rápido o poder público reage.
Nesse ponto, o Legislativo é fundamental. Ele é o legítimo representante da voz do povo. Quando entra em sintonia com essa voz, provoca iniciativas imediatas.
O grande entrave atual é que o Legislativo representa muito mal a sociedade. O sistema usado para escolher seus membros não o aproxima da população. Ao contrário, permite um distanciamento que gera uma esquizofrenia: a voz do representante não é a voz do representado.
É preciso alterar o modelo de escolha de deputados e vereadores.

VOTO DISTRITAL

O sistema de hoje é o proporcional. Permite que o candidato tenha voto em todo lugar do estado ou do município. Ele não aproxima o parlamentar do eleitor. Ao contrário, admite que o elo entre os dois seja cortado sem prejuízo do eleito. Porque este pode buscar votos em outras regiões, mudando de base, sempre que precisar escapar da avaliação do eleitor.
O sistema proporcional aproxima o parlamentar de sua fonte de financiamento. Esta ele não pode contrariar, pois sem recursos não se reelege. Dessa forma, o vínculo do parlamentar se dá com a fonte de recursos e não com quem ele representa.
Aí está o X da questão. Quem elege o deputado ou o vereador é, na esmagadora maioria dos casos, o dinheiro arrecadado. Logo, o compromisso dele se dá com o interesse da fonte. Nem sempre escuso, mas, em geral, diverso da angústia do eleitorado.
É impressionante que até hoje nem os vereadores sejam eleitos por distritos. Vastas regiões das cidades permanecem, por anos, sem representantes.
O voto distrital cria um vínculo inafastável entre eleitor e eleito. Para se reeleger, o parlamentar tem que voltar à mesma base, prestar contas e, então, pleitear a reeleição. Não dá para ele catar votos em cada lugar separadamente nem mudar de distrito a cada decepção que causar ao eleitor.
O voto distrital é o pai e mãe da reforma política. Antecede a tudo. E é também o ponto mais relevante na mudança das políticas públicas.
O Legislativo atual abre mão de legislar,sua função básica. Assim, não cria o clima necessário para apressar e aprimorar os projetos. Ao contrário, tem funcionado como freio às mudanças. Só aprova o que o Executivo deseja.
E o poder Executivo é, geralmente, conservador. Atua na retranca.
O voto distrital, puro ou misto, é essencial para o sucesso das políticas públicas.

José Luiz Portella

A hora do Brasil

Navegamos por um novo mundo multipolar no qual as alianças, por isso mesmo, são ainda mais cruciais.
O Brasil está no lado ganhador no mundo pós-colapso financeiro. Nossa diplomacia precisa receber atenção e investimentos para aproveitarmos esta oportunidade sem precedentes de ganhar força e projeção global.
Nossas credenciais geoeconômicas e geopolíticas são impressionantes: uma das maiores democracias do mundo, uma das maiores economias do mundo, dominante na América do Sul, dominante em mercados-chave como alimentos, energia e minérios, com desenvolvimento inclusivo, mercado interno explodindo, inestimáveis reservas ambientais, mercado financeiro sofisticado, Estado de Direito em consolidação, estabilidade política, sem conflitos relevantes com outros países...
É uma lista de atributos invejável que deve nos garantir uma posição muito mais forte no grande jogo das nações do que a que conseguimos até aqui.
O abandono pelo dilmismo do terceiro-mundismo anacrônico da Era Lula é apenas um primeiro passo para uma diplomacia maior, resultante desse novo país que o mundo quer ver e ouvir.
E a revolta no mundo árabe é desses eventos seminais de grandeza planetária onde a nova voz do Brasil pode e deve sobressair.
Desta vez, ao contrário do triste histórico da diplomacia lulista, não corremos para apoiar o ditador de turno que massacra opositores, mas ajudamos a aprovar resoluções na ONU condenando o regime de Gaddafi.
Ainda estamos longe de vermos a diplomacia moral dominando as relações entre as nações, mas é animador ver como a revolta árabe por liberdade e democracia ganhou simpatia global.
Se o mundo árabe de fato caminhar para a democracia, mexerá terra suficiente para abalar o que restar das ditaduras que ainda mancham o planeta: dos vizinhos africanos ao sul do Saara aos distantes pós-comunistas asiáticos.
Foi sintomático o pavor do regime chinês com micro-manifestações convocadas por redes sociais na web para apoiar a democracia.
O mundo será melhor quanto menos ditaduras existirem, e em poucos meses sob Dilma, que sentiu uma ditadura na pele, o Brasil parece ter mudado dramaticamente de defensor de ditadores a promotor da democracia. Finalmente.
O terceiro-mundismo lulista ao menos aumentou a superfície de nossa diplomacia e fortaleceu laços Sul-Sul. É hora de valorizarmos também nossos tradicionais aliados ocidentais.
Se ao bloco democrático de EUA, Europa, Japão e Austrália o Brasil juntar a sua voz, o coro da democracia soará muito mais forte e afinado no concerto das nações.
O Brasil é a melhor ponte entre o Norte e o Sul porque pode se colocar nos dois lugares e ser ouvido por ambos. É uma posição nobre a valorosa, para a qual devemos rumar.
Chegou a hora do Brasil no cenário global.

Sérgio Malbergier

Encontros e desencontros

Sempre que eu escrevo sobre religião, como foi o caso na coluna passada, passada, sou invariavelmente assaltado com argumentos do tipo "É preciso que haja um Criador, pois a chance de a vida ter surgido por acaso na Terra é a mesma da de um vendaval varrendo um depósito de lixo fabricar um Boeing 747 a partir dos materiais lá disponíveis".
Admito que a analogia é divertida, mas pouco exata. Ela foi criada por um respeitável astrônomo britânico, sir Fred Hoyle, para defender a hipótese da panspermia, isto é, de que as moléculas que deram origem à vida surgiram no espaço e foram trazidas à Terra por cometas. Sir Fred, que se notabilizou por ser o cientista "do contra" (além da evolução química, opôs-se, entre outras coisas, ao Big Bang), acabou se tornando, por razões óbvias, o herói da turma do design inteligente. É uma pena, porque isso obscurece sua importante contribuição para a nucleossíntese estelar (mais especificamente, o surgimento dos átomos de carbono no núcleo das estrelas).
A ideia básica de Hoyle é que a probabilidade de se obter o conjunto de enzimas para a mais simples das células é de uma em 10 40000. Como o número de átomos existentes no úniverso é estimado em "apenas"10 80, o astrônomo concluiu que mesmo um Universo repleto de sopa primordial teria dado pouca chance para processos evolutivos, daí a necessidade de um processo guiado. Apesar de tudo, Hoyle nunca chegou a defender a existência de um Criador. Foi até apelidado de "o ateu favorável ao design inteligente".
Há pelo menos um erro fatal no argumento, a que os biólogos moleculares chamam de falácia de Hoyle. O autor faz suas contas imaginando a probabilidade de uma primeira sequência chegar ao produto final num único passo. Só que nenhum biólogo ousa afirmar que sistemas complexos surgem num único passo. Mesmo quando se considera a origem da vida, é preciso levar em conta os passos intermediários que possam ter sido de alguma valia para a vida pré-celular do organismo. Ignorar isso leva a subestimar grosseiramente a probabilidade do processo.
Subjaz ao erro de Hoyle uma incompreensão fundamental sobre o papel do acaso na evolução. Embora mutações nos seres vivos de fato ocorram aleatoriamente, a seleção subsequente --que conserva o que é útil e despreza o que não o é nada tem a ver com acaso. Ela é, se quisermos, o avesso do acaso. Trata-se, na verdade, de um dos poucos processos naturais que conseguem simular o trabalho de projetistas. Só que funciona ao contrário. Ao preservar traços mesmo que milimétricos de utilidade e descartar todas as mutações que não servem para nada (a maioria delas é neutra ou resulta em cânceres, é oportuno lembrar), a seleção consegue, ao longo de inúmeras gerações, produzir estruturas que passam por entidades concebidas por uma inteligência.
Acho que vale a pena agora darmos uma guinada psicológica e tentar entender melhor por que as pessoas compreendem tão mal o acaso. Não parece exagero afirmar que já nascemos com preconceito contra ele. Entre os vieses fundamentais de nosso cérebro, aos quais já aludi algumas vezes neste espaço, está a obsessão pelo controle.
Nós, seres humanos, adoramos estar no controle. E adoramos tanto que achamos que estamos no comando mesmo quando não estamos. Como explica Leonard Mlodinov em seu "The Drunkard's Walk: How Randomness Rules our Lives" (o andar do bêbado: como o acaso comanda nossas vidas), um dos experimentos favoritos dos psicólogos é botar um sujeito diante de luzes que piscam num padrão aleatório e mandá-lo apertar um botão que não faz nada. Em pouco tempo o cara vai dizer que controla as luzes.
Numa variante, colocam um grupo de indivíduos diante de um círculo luminoso onde as luzes piscam ao acaso e dizem que, se elas se concentrarem, farão com que as luzes pisquem num movimento horário. Logo, essas pessoas ficam surpresas achando que conseguiram, embora as luzes sigam piscando aleatoriamente. É até possível fazer com que dois times compitam simultaneamente, um para fazer com que as luzes sigam em movimento horário, e, outro, em anti-horário. O interessante na história é que não haverá perdedores. Os dois lados vão clamar vitória.
A busca por controle está tão impregnada em nossas mentes que produz efeitos inesperados sobre nossos corpos. Num experimento seminal, Ellen Langer dividiu pacientes idosos de asilos em dois grupos. O primeiro podia decidir como dispor as coisas em seus quartos e também pôde escolher uma planta e cuidar dela. O segundo tinha seus quartos arrumados por funcionários. Esses velhinhos também ganharam um planta, mas não puderam escolhê-la nem podiam regá-la, tarefa que cabia ao pessoal de apoio dos asilos. Algumas semanas depois, ambos os grupos foram submetidos a testes que mensuravam o bem-estar. Como o leitor já deve ter adivinhado, o conjuto que exercia controle sobre seu ambiente se saiu bem melhor.
O que ninguém esperava, porém, aconteceu 18 meses depois, quando Langer deu início a um estudo de "follow-up": o grupo que não dispunha de controle apresentou uma taxa de mortalidade de 30%, contra 15% dos que regavam suas próprias plantas.
Outros experimentos de Langer mostraram que a necessidade de sentir-se no controle afeta nossa percepção de eventos aleatórios. Num deles, voluntários preferiram consistemente jogar contra um adversário que aparentava nervosismo a um que parecia calmo, mesmo sendo uma disputa de cara ou coroa, em que o resultado é determinado exclusivamente pelo acaso, e nada tem a ver com o estado emocional do jogador.
Meu palpite é que esse amor pelo controle, que tem como reverso uma certa fobia do acaso, está também na origem das religiões. Do vodu e dos cultos animistas às rezas, a religião busca transmitir a sensação de que alguém controla o curso dos acontecimentos. Mais do que isso, deixa uma janela para nós mesmos atuarmos. Implorar um favor a um ser onipotente já é tomar algum tipo de atitude, o que é mais do que limitar-se reconhecer o grande papel que o acaso tem sobre nossas existências.
E, como o livro de Mlodinov explora muito bem, esse papel é muito, muito maior do que gostamos de acreditar. É claro que também há espaço para o talento e a determinação, mas, mesmo assim, fatores aleatórios seguem com enorme influência.
No fundo, a conta é simples. Como diz Mlodinov, "se os eventos são aleatórios, nós não estamos no controle, e, se estamos no controle, eles não são aleatórios". Esse choque fundamental é uma das principais razões por que confundimos habilidade com sorte e ações sem sentido com controle. É também uma das razões por que muitos de nós acreditam em deuses e ficam de cabelo em pé com a simples sugestão de que a vida (e a nossa existência e a de todos os que amamos) resulte do encontro inopinado de moléculas de carbono com mais meia dúzia de produtos químicos baratos.

Hélio Schartsman

Democracias, ditaduras e escrúpulos

Os acontecimentos dos últimos dias na Líbia deixam claro que a falta absoluta de escrúpulos é a grande vantagem que as ditaduras eventualmente levam sobre as democracias.
OK, já sei que você vai dizer que democracias às vezes são hipócritas e às vezes jogam os escrúpulos às favas. É verdade, mas sempre há limites que tiranos como Gaddafi desconhecem completamente e sempre.
Por isso, comete uma matança que, no caso dos ataques a Ras Lanuf e Brega nesta quinta-feira, provocaram "uma mudança decisiva" na guerra civil em curso, conforme a avaliação de Anthony Shadid e David D. Kirkpatrick, ambos cobrindo no "front" pelo "New York Times".
Posto de outra forma, dão mais motivos para a pergunta que fiz outro dia, ou seja, "e se Gaddafi ganhar?".
Seria a desmoralização das democracias, entaladas nas dificuldades para intervir decisivamente.
É verdade que a França reconheceu como único governo legítimo da Líbia aquele instalado em Bengasi, mas nada impede que a ofensiva desencadeada pelas forças do tirano arrasem também a capital rebelde.
O "New York Times" dizia, no on-line desta quinta, que, "se confirmados, os ataques a Brega sugeririam que as forças leais [a Gaddafi] estariam movendo-se mais adiante rumo a Bengasi, possivelmente atacando as linhas de suprimento rebeldes".
Pois bem: vi na "Al Jazeera" que, sim, as forças de Gaddafi estavam atacando Brega.
Confirma o principal funcionário da inteligência norte-americana, James Clapper: "A vantagem militar e em recursos logísticos do governo assegurariam que, a longo prazo, o regime vai prevalecer".
O que fazer, então? James Lindsay, vice-presidente do Council on Foreign Relations, listou sete possíveis cursos de ação para os Estados Unidos, apenas para descartar um após o outro. São: zona de exclusão aérea; zona de exclusão de veículos; empurrar algum país a intervir na Líbia; armar os rebeldes; pedir a outros países que armem os rebeldes; fornecer inteligência militar tática aos rebeldes; e fornecer-lhes suporte moral e humanitário (esta última é risível, convenhamos).
"Nenhuma dessas opções é atraente", conclui Lindsay.
Não sei, não, mas uma zona de exclusão aérea, a esta altura, poderia conter a carnificina porque os testemunhos dos repórteres em campo indicam que só a partir do momento em que passou a usar bombardeios aéreos é que Gaddafi conseguiu a "mudança decisiva" anotada pelo "New York Times".
O problema para implementá-la é que os escrúpulos das democracias pedem que seja aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. E, aí, uma ditadura aberta (China) e uma velada (a Rússia) não teriam escrúpulos em vetar.
Em meio a tanto horror, uma boa notícia saber que foi libertado Andrei Netto, o correspondente do "Estadão" em Paris e que estava na Líbia havia 19 dias, até ser preso pelas forças do governo.

Clóvis Rossi

quarta-feira, 9 de março de 2011