Não há fuga do capitalismo. É a grande lição deste promissor e transformador início de século.
Depois da eclosão da maior crise econômica desde os anos 1930, ainda em andamento, a economia de mercado é hoje mais hegemônica do que há dois anos, quando o Lehman Brothers quebrou e levou junto o mercado financeiro global.
Centenas de milhares de trabalhadores europeus marcharam pelo velho continente ontem num dia de protesto contra as políticas econômicas adotadas por causa da crise, que muitos acreditaram poderia fortalecer as esquerdas, mas que acabou inviabilizando suas posturas mais tradicionais. A receita contra a crise do capitalismo é um capitalismo depurador.
A Espanha do premiê socialista José Luiz Zapatero, palco dos maiores protestos ontem, é o melhor exemplo: teve que reduzir gastos públicos e direitos trabalhistas para reativar a economia do país e satisfazer a exigência de maior rigor fiscal feita pelo mercado (que financia os gastos espanhóis). A Grécia socialista também tomou medidas duras contra benefícios e gastos.
Chegou-se a opinar que a Europa estaria mais bem preparada para enfrentar os problemas sociais pós-crise que os EUA por causa de seus generosos benefícios sociais. Mas o que se viu foi esse colchão de proteção montado ao longo do século passado encolher junto com o sistema financeiro. E em países governados tanto pela direita quanto pela esquerda.
A esquerda é obrigada a engolir esse tipo de medida porque sabe que o capitalismo é o único jogo no mundo hoje. Quanto mais capitalista fica a China, mais rica ela fica. O Brasil também.
Cada vez mais sincronizado em tudo (inclusive na política), o mundo assiste a importantes vitórias eleitorais da direita desde a crise capitalista: a mais espetacular delas na Suécia, bastião esquerdista, no início de setembro.
A próxima grande vitória deve ser a tomada do Congresso americano pelos conservadores republicanos, revigorados pelo movimento antitributos e pró-liberalismo econômico.
No Brasil, nenhum candidato presidencial relevante ousa confrontar o modelo econômico vigente, que finalmente nos colocou no caminho da prosperidade.
Isso não quer dizer que tudo siga como antes. A própria crise depurou o sistema e impôs reformas prudenciais.
Ela também escancarou e acelerou o grande movimento geopolítico e geoeconômico que está mudando o mundo. A emergência da periferia do capitalismo como novo motor do avanço global transforma o planeta muito mais do que a própria crise econômica.
Não é o triunfo de um modelo socioeconômico sobre outro, como se viu na Guerra Fria, mas a disseminação do modelo hegemônico, que libera um dinamismo represado em nações como China, Brasil, Índia, Colômbia, Vietnã, a lista dos cada vez mais capitalistas cada vez aumenta mais (até tu, Cuba?).
Se do capitalismo vamos algum dia para um novo modelo, a ver. Mas já sabemos que não vamos retroceder pelas ilusões do socialismo.
Desse mal não mais padeceremos. A crise nos curou do esquerdismo.
Sérgio Malbergier
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Democracia, imprensa e viés eleitoral
A democracia não elimina o conflito entre diferentes facções políticas. Ela apenas procura discipliná-lo, de modo que a disputa pelo poder se resolva pela vias institucionais e não as de fato. De um modo geral funciona. Desde que a democracia foi restabelecida por aqui, em 1985, não assistimos a revoluções, golpes de Estado e outras modalidades de ruptura violenta. Um quarto de século não é muito, conceda-se. Mas, em alguns países, o período de estabilidade política proporcionado pela institucionalização das controvérsias pode chegar a vários séculos, como é o caso dos EUA e do Reino Unido e da Sereníssima San Marino, República fundada em 301 e cuja Constituição vigora desde 1600. É claro que normalidade política não é tudo, mas é uma condição no mais das vezes necessária para que um país consiga aliar desenvolvimento econômico com um regime de liberdades, o que, por seu turno, permite aos cidadãos que se dediquem a buscar a própria felicidade.
Quanto a essa polêmica toda em torno das supostas tendências liberticidas do governo Lula contra o presumido caráter golpista da mídia brasileira, eu diria que a grita faz parte do jogo. É um dos caminhos institucionais da disputa. Enquanto as divergências ficam no terreno da retórica, estamos atuando de acordo com as regras. Pode não ser muito bonito, mas não vejo aí nenhuma ameaça. A democracia, como eu já disse, não tem o dom de eliminar o conflito latente na sociedade. E isso, aliás, nem seria desejável.
A imprensa quer derrubar Lula? Difícil acreditar. Ao contrário do que os setores mais à direita previam em 2002, o país não só não foi tomado pelo caos com a vitória do dirigente petista como vai muito bem com ele no poder. Na economia e em várias outras áreas sensíveis, Lula mostrou-se tão ou mais conservador do que seus antecessores tucanos. As diferenças pequenas entre as propostas dos principais candidatos a sucedê-lo são um bom indício de que uma eventual deposição dos petistas, ainda que desejada por certos setores, não vale o risco de uma aventura golpista. É mais negócio esperar a próxima crise econômica, que abrirá uma excelente janela de oportunidade para a oposição. De resto, fazer acusações, xingar, propor "impeachment" (o PT pediu o afastamento de FHC), tudo isso é permitido pelo jogo.
E Lula pretende destruir a sociedade livre? Também me parece uma besteira. É fato que o presidente padece de incontinência verbal, o que invariavelmente o faz dizer coisas que deveria calar, mas, afora a paternal leniência para com aliados, aloprados e ditadores da estirpe de Ahmadinejad, Lula não tomou nenhuma medida de lesa-democracia. A principal "prova" apresentada pelos opositores é o Plano Nacional de Direitos Humanos 3, um decreto (sem força de lei) que elenca intenções do governo em áreas tão diversas como direitos de mulheres, crianças e populações indígenas, combate à tortura, à pobreza, ao racismo e às perseguições a minorias. Nessa extensa pauta, faz referências à "democratização" dos meios de comunicação. É um documento mais voltado à militância do que à base parlamentar, que, de resto, só teria algum efeito prático se convertido em projetos de lei específicos que fossem individualmente aprovados pelo Congresso.
No mais, todos os governos do mundo livre sempre tentam dar uma apertadinha na imprensa, que normalmente reage à altura. Nos regimes democráticos, tudo fica no reino do diz-que-diz e das pressões. É mais uma modalidade do jogo.
Cuidado. Não estou, com essas minhas observações, absolvendo Lula e o PT. Há fartos indícios de que petistas infringiram um bom número de artigos do Código Penal. Numa democracia mais madura, as consequências legais desses atos viriam em tempo hábil, provocando também repercussões políticas. A questão central, contudo, é que há uma diferença entre formar quadrilha, como a Procuradoria Geral da República descreve o "mensalão", e atentar contra a democracia. O PT parece envolvido até o pescoço no primeiro pecado, mas é inocente do segundo.
E isso nos leva à questão de fundo desta coluna: por que raios, quando o assunto é política, as pessoas param de pensar com a cabeça e reagem apenas emocionalmente? O problema, receio, é mais grave. Eu diria que a política é um dos poucos assuntos onde conseguimos perceber com alguma clareza que nossos cérebros são profundamente enviesados. Em outras áreas, nosso órgão executivo central também age segundo um sistema de preferências internas preestabelecidas, com base em emoções e intuições morais esculpidas por condicionamentos culturais, mas nós mal nos damos conta disso.
Quem resume bem a situação é Robert Wright, em "Animal Moral": "O cérebro é como um bom advogado: dado um conjunto de interesses a defender, ele se põe a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Como um advogado, o cérebro humano quer vitória, não verdade; e, como um advogado, ele é muitas vezes mais admirável por sua habilidade do que por sua virtude".
Esse sistema está tão enraizado dentro de nós que, de acordo com o psicólogo Jonathan Haidt, depois que um juízo intuitivo foi proferido e reforçado por uma racionalização "post hoc" (o cérebro causídico), existem apenas quatro circunstâncias sob as quais esse juízo pode ser alterado. A primeira e a segunda têm mais a ver com interações sociais do que com pensamento propriamente dito. Elas são o efeito maria-vai-com-as-outras e a obediência a uma autoridade.
A força desses fenômenos já foi estabelecida em diversos experimentos psicológicos. Solomon Asch revelou como um indivíduo pode ser levado a dizer uma inverdade óbvia (o tamanho de diferentes objetos colocados à sua frente, por exemplo) se um bom número de pessoas (atores contratados) sustentar a mentira antes dele. Já Stanley Milgram, na célebre experiência que leva seu nome, mostrou que, quando recebiam ordens de cientistas (mesmo que sem muita ênfase), voluntários comuns eram capazes de desferir em outros seres humanos choques que acreditavam (falsamente) ser capazes de deixar graves sequelas.
As outras duas hipóteses levantadas por Haidt são mais promissoras para os amantes da razão. Ele as batizou de juízo racionalizado e reflexão privada. O problema é que só tendem a ocorrer quando a intuição moral inicial é muito fraca ou inexistente e a capacidade analítica do sujeito, forte. É só aí que o advogado pode sair de férias.
A razão está, então, condenada? Sim e não. A resposta depende de como a definimos. A ideia de que a escolha de um candidato a presidente (ou qualquer outra escolha que envolva maior conteúdo moral ou emocional do que decidir qual azeitona tirar da travessa) é resultado de uma reflexão que pesa prós e contras nos moldes preconizados pelos teóricos do Iluminismo fica de fato comprometida. A questão é que esse modelo jamais foi verdadeiro. Ele existia apenas nas cabeças dos "philosophes".
Como o neurologista português António Damásio mostrou, aquilo que chamamos de razão é resultado de complexos processos cerebrais catalisados por emoções. Sem elas, seria impossível até mesmo pensar. Como bem observa o neurocientista Michael Gazzaniga, autor de "Human: The Science Behind What Makes Your Brain Unique", esse rebaixamento do estatuto da razão talvez não seja uma má notícia. Afinal, se fôssemos todos 100% racionais o tempo todo, ninguém daria gorjeta num restaurante a que não pretende voltar e esposas abandonariam seus maridos doentes para ficar com um parceiro saudável. Num mundo perfeitamente racional, sempre vale a pena roubar a carteira do melhor amigo, se tivermos alguma garantia de que não seremos apanhados. São as emoções que possibilitam a moral e a ética.
O desafio diante de nós é aprender que nossos cérebros são máquinas de autoengano e, na medida das possibilidades, tentar nos precaver contra o erro. No mundo contemporâneo, pensar racionalmente às vezes vale a pena.
Hélio Schwartsman
Quanto a essa polêmica toda em torno das supostas tendências liberticidas do governo Lula contra o presumido caráter golpista da mídia brasileira, eu diria que a grita faz parte do jogo. É um dos caminhos institucionais da disputa. Enquanto as divergências ficam no terreno da retórica, estamos atuando de acordo com as regras. Pode não ser muito bonito, mas não vejo aí nenhuma ameaça. A democracia, como eu já disse, não tem o dom de eliminar o conflito latente na sociedade. E isso, aliás, nem seria desejável.
A imprensa quer derrubar Lula? Difícil acreditar. Ao contrário do que os setores mais à direita previam em 2002, o país não só não foi tomado pelo caos com a vitória do dirigente petista como vai muito bem com ele no poder. Na economia e em várias outras áreas sensíveis, Lula mostrou-se tão ou mais conservador do que seus antecessores tucanos. As diferenças pequenas entre as propostas dos principais candidatos a sucedê-lo são um bom indício de que uma eventual deposição dos petistas, ainda que desejada por certos setores, não vale o risco de uma aventura golpista. É mais negócio esperar a próxima crise econômica, que abrirá uma excelente janela de oportunidade para a oposição. De resto, fazer acusações, xingar, propor "impeachment" (o PT pediu o afastamento de FHC), tudo isso é permitido pelo jogo.
E Lula pretende destruir a sociedade livre? Também me parece uma besteira. É fato que o presidente padece de incontinência verbal, o que invariavelmente o faz dizer coisas que deveria calar, mas, afora a paternal leniência para com aliados, aloprados e ditadores da estirpe de Ahmadinejad, Lula não tomou nenhuma medida de lesa-democracia. A principal "prova" apresentada pelos opositores é o Plano Nacional de Direitos Humanos 3, um decreto (sem força de lei) que elenca intenções do governo em áreas tão diversas como direitos de mulheres, crianças e populações indígenas, combate à tortura, à pobreza, ao racismo e às perseguições a minorias. Nessa extensa pauta, faz referências à "democratização" dos meios de comunicação. É um documento mais voltado à militância do que à base parlamentar, que, de resto, só teria algum efeito prático se convertido em projetos de lei específicos que fossem individualmente aprovados pelo Congresso.
No mais, todos os governos do mundo livre sempre tentam dar uma apertadinha na imprensa, que normalmente reage à altura. Nos regimes democráticos, tudo fica no reino do diz-que-diz e das pressões. É mais uma modalidade do jogo.
Cuidado. Não estou, com essas minhas observações, absolvendo Lula e o PT. Há fartos indícios de que petistas infringiram um bom número de artigos do Código Penal. Numa democracia mais madura, as consequências legais desses atos viriam em tempo hábil, provocando também repercussões políticas. A questão central, contudo, é que há uma diferença entre formar quadrilha, como a Procuradoria Geral da República descreve o "mensalão", e atentar contra a democracia. O PT parece envolvido até o pescoço no primeiro pecado, mas é inocente do segundo.
E isso nos leva à questão de fundo desta coluna: por que raios, quando o assunto é política, as pessoas param de pensar com a cabeça e reagem apenas emocionalmente? O problema, receio, é mais grave. Eu diria que a política é um dos poucos assuntos onde conseguimos perceber com alguma clareza que nossos cérebros são profundamente enviesados. Em outras áreas, nosso órgão executivo central também age segundo um sistema de preferências internas preestabelecidas, com base em emoções e intuições morais esculpidas por condicionamentos culturais, mas nós mal nos damos conta disso.
Quem resume bem a situação é Robert Wright, em "Animal Moral": "O cérebro é como um bom advogado: dado um conjunto de interesses a defender, ele se põe a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Como um advogado, o cérebro humano quer vitória, não verdade; e, como um advogado, ele é muitas vezes mais admirável por sua habilidade do que por sua virtude".
Esse sistema está tão enraizado dentro de nós que, de acordo com o psicólogo Jonathan Haidt, depois que um juízo intuitivo foi proferido e reforçado por uma racionalização "post hoc" (o cérebro causídico), existem apenas quatro circunstâncias sob as quais esse juízo pode ser alterado. A primeira e a segunda têm mais a ver com interações sociais do que com pensamento propriamente dito. Elas são o efeito maria-vai-com-as-outras e a obediência a uma autoridade.
A força desses fenômenos já foi estabelecida em diversos experimentos psicológicos. Solomon Asch revelou como um indivíduo pode ser levado a dizer uma inverdade óbvia (o tamanho de diferentes objetos colocados à sua frente, por exemplo) se um bom número de pessoas (atores contratados) sustentar a mentira antes dele. Já Stanley Milgram, na célebre experiência que leva seu nome, mostrou que, quando recebiam ordens de cientistas (mesmo que sem muita ênfase), voluntários comuns eram capazes de desferir em outros seres humanos choques que acreditavam (falsamente) ser capazes de deixar graves sequelas.
As outras duas hipóteses levantadas por Haidt são mais promissoras para os amantes da razão. Ele as batizou de juízo racionalizado e reflexão privada. O problema é que só tendem a ocorrer quando a intuição moral inicial é muito fraca ou inexistente e a capacidade analítica do sujeito, forte. É só aí que o advogado pode sair de férias.
A razão está, então, condenada? Sim e não. A resposta depende de como a definimos. A ideia de que a escolha de um candidato a presidente (ou qualquer outra escolha que envolva maior conteúdo moral ou emocional do que decidir qual azeitona tirar da travessa) é resultado de uma reflexão que pesa prós e contras nos moldes preconizados pelos teóricos do Iluminismo fica de fato comprometida. A questão é que esse modelo jamais foi verdadeiro. Ele existia apenas nas cabeças dos "philosophes".
Como o neurologista português António Damásio mostrou, aquilo que chamamos de razão é resultado de complexos processos cerebrais catalisados por emoções. Sem elas, seria impossível até mesmo pensar. Como bem observa o neurocientista Michael Gazzaniga, autor de "Human: The Science Behind What Makes Your Brain Unique", esse rebaixamento do estatuto da razão talvez não seja uma má notícia. Afinal, se fôssemos todos 100% racionais o tempo todo, ninguém daria gorjeta num restaurante a que não pretende voltar e esposas abandonariam seus maridos doentes para ficar com um parceiro saudável. Num mundo perfeitamente racional, sempre vale a pena roubar a carteira do melhor amigo, se tivermos alguma garantia de que não seremos apanhados. São as emoções que possibilitam a moral e a ética.
O desafio diante de nós é aprender que nossos cérebros são máquinas de autoengano e, na medida das possibilidades, tentar nos precaver contra o erro. No mundo contemporâneo, pensar racionalmente às vezes vale a pena.
Hélio Schwartsman
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Os "ingratos" se vingam de Lula

Segundo o Centro de Políticas Sociais da FGV-RJ, quase 30 milhões de brasileiros ascenderam à classe C no governo Lula.
Esse pessoal tem renda familiar mensal entre R$ 1.126 e R$ 4.854. Constitui hoje o bloco com maior poder de consumo no país, à frente das classes A, B, D (já o segundo maior) e E.
Segundo a empresa de pesquisas Data Popular, cabem no bolso da classe C cerca de R$ 430 bilhões anuais em compras.
Foi graças principalmente à política de valorização do salário mínimo (alta de 53% acima da inflação sob Lula) e aos quase 15 milhões de empregos formais criados em seu governo que essa travessia para a classe C ocorreu.
Pois bem: é exatamente a classe C que está ameaçando a candidata petista Dilma Rousseff de ter de enfrentar um segundo turno.
Dilma perdeu cerca de 6 milhões de votos (entre um total de 135 milhões) nas duas últimas semanas.
O período foi pontuado por escândalos na Casa Civil, a demissão da ex-braço direito de Dilma, Erenice Guerra, e por críticas destemperadas da candidata e de Lula contra a imprensa em geral.
A candidata do PV à Presidência, Marina Silva, foi a maior beneficiada por essa migração de votos. Conquistou cerca de 4 milhões de eleitores no período. Serra ganhou cerca de 2 milhões.
Mais da metade dessa "sangria" (cerca de 3,6 milhões de votos) se concentrou exatamente na parcela da população pertencente à classe C.
O mais significativo é que Dilma perdeu eleitores ou oscilou para baixo em todos os estratos da população.
Isso ocorre quando a economia brasileira está posicionada para crescer quase 8% neste ano eleitoral. E num momento em que a renda e o número de empregos formais continuam ascendentes.
A grande trincheira de Dilma continua sendo os menos favorecidos.
No Nordeste, região mais pobre do Brasil, ela tem o triplo das intenções de voto de Serra (59% contra 19%). Entre os que tem renda familiar mensal até R$ 1.020, Dilma bate Serra por 52% a 25%.
O irônico nesta reta final do primeiro turno é que é de Lula o mérito por ter colocado mais dinheiro no bolso dos brasileiros para comprar bens, televisores, estudar mais e se informar.
São eles que colocam agora sua candidata sob pressão por conta de escândalos e fanfarronices contra a mídia.
É bom que seja assim.
Veja no quadro acima como foi a migração de votos de Dilma para as demais candidaturas considerando renda e escolaridade, segundo a pesquisa Datafolha realizada em dia. 27.set.:
Fernando Canzian
Ciência da compaixão
Tenho profunda simpatia pela meditação, embora não a pratique. Não acho que a ideia de uma atividade introspectiva silenciadora da consciência seja incompatível com ciência, ao contrário. Posso testemunhar que a decisão de respirar fundo e esvaziar da mente o pensamento agressivo, nos momentos de irritação, dá melhores resultados que esbravejar. Por que não poderia servir de base para uma filosofia de vida e, mais, tornar-se objeto de investigação científica?
Alguma coisa acontece no cérebro de quem consegue a proeza, isso é certo. E não só no cérebro. Richard Davidson, neurocientista da Universidade de Wisconsin em Madison (EUA), desobedeceu aos conselhos de antigos orientadores na Universidade Harvard e se dispôs a descobrir o que, exatamente, se altera nos corações e mentes dos meditabundos, segundo leio em reportagem de Dirk Johnson no diário "The New York Times".
Davidson criou um Centro para Investigação de Mentes Saudáveis em Wisconsin. Seus objetos de pesquisa são "qualidades positivas" da mente, ou "virtuosas", como altruísmo e felicidade. Nos próximos cinco anos, as prioridades de investigação recaem sobre compaixão, amor e perdão.
A simpatia aumenta, diante de tanta coragem. A primeira reação de muitos diante desse programa de pesquisa pode ser negativa, pois ele recende à mescla em princípio indesejável de valores com ciência objetiva. Mas quem disse que valores nunca se misturam com ciência?
Os pesquisadores gostam de imaginar que a confusão nunca ocorre, mas ela acontece o tempo todo. Por exemplo, quando escolhem os objetos de pesquisa, ou as variáveis que investigarão. Ninguém estranha que se estudem comportamentos violentos, ou a depressão. Estamos viciados na noção de que é mais útil investigar as patologias para tentar descobrir "remédios" contra elas.
Davidson está interessado no caráter preventivo da meditação. Acaba de iniciar um projeto sobre seus efeitos em jovens de quinta série na cidade de Madison. Eles serão treinados para dedicar pensamentos caridosos a seus parentes e colegas, ou até mesmo estranhos e inimigos. Ao final do ensino fundamental, época em que adolescentes partem para as drogas ou para a ignorância, seu comportamento será comparado com o de um grupo de controle, que não terá exercitado a meditação compassiva.
Quem achar que nada disso é sério, saiba que Davidson não está aí para brincadeiras. Conta com o apoio de ninguém menos que Tenzing Gyatso, o dalai lama, um amigo pessoal que doou US$ 50 mil para as pesquisas do centro. E o neurocientista já publicou vários artigos em periódicos científicos sobre meditação, como um estudo de 2003 em que comprovou que ela pode aumentar até o efeito protetor de vacina contra a gripe, ao estimular o sistema imunológico (resultado oposto ao do estresse, reconhecido por todos).
Existem vários outros estudos mostrando com métodos objetivos que a meditação pode afetar positivamente as pessoas e inclusive fazer bem ao coração, em sentido literal e fisiológico. Já escrevi sobre o tema aqui.
Pense nisso. Com generosidade. Depois decida quem merece um voto de confiança.
Marcelo Leite
Alguma coisa acontece no cérebro de quem consegue a proeza, isso é certo. E não só no cérebro. Richard Davidson, neurocientista da Universidade de Wisconsin em Madison (EUA), desobedeceu aos conselhos de antigos orientadores na Universidade Harvard e se dispôs a descobrir o que, exatamente, se altera nos corações e mentes dos meditabundos, segundo leio em reportagem de Dirk Johnson no diário "The New York Times".
Davidson criou um Centro para Investigação de Mentes Saudáveis em Wisconsin. Seus objetos de pesquisa são "qualidades positivas" da mente, ou "virtuosas", como altruísmo e felicidade. Nos próximos cinco anos, as prioridades de investigação recaem sobre compaixão, amor e perdão.
A simpatia aumenta, diante de tanta coragem. A primeira reação de muitos diante desse programa de pesquisa pode ser negativa, pois ele recende à mescla em princípio indesejável de valores com ciência objetiva. Mas quem disse que valores nunca se misturam com ciência?
Os pesquisadores gostam de imaginar que a confusão nunca ocorre, mas ela acontece o tempo todo. Por exemplo, quando escolhem os objetos de pesquisa, ou as variáveis que investigarão. Ninguém estranha que se estudem comportamentos violentos, ou a depressão. Estamos viciados na noção de que é mais útil investigar as patologias para tentar descobrir "remédios" contra elas.
Davidson está interessado no caráter preventivo da meditação. Acaba de iniciar um projeto sobre seus efeitos em jovens de quinta série na cidade de Madison. Eles serão treinados para dedicar pensamentos caridosos a seus parentes e colegas, ou até mesmo estranhos e inimigos. Ao final do ensino fundamental, época em que adolescentes partem para as drogas ou para a ignorância, seu comportamento será comparado com o de um grupo de controle, que não terá exercitado a meditação compassiva.
Quem achar que nada disso é sério, saiba que Davidson não está aí para brincadeiras. Conta com o apoio de ninguém menos que Tenzing Gyatso, o dalai lama, um amigo pessoal que doou US$ 50 mil para as pesquisas do centro. E o neurocientista já publicou vários artigos em periódicos científicos sobre meditação, como um estudo de 2003 em que comprovou que ela pode aumentar até o efeito protetor de vacina contra a gripe, ao estimular o sistema imunológico (resultado oposto ao do estresse, reconhecido por todos).
Existem vários outros estudos mostrando com métodos objetivos que a meditação pode afetar positivamente as pessoas e inclusive fazer bem ao coração, em sentido literal e fisiológico. Já escrevi sobre o tema aqui.
Pense nisso. Com generosidade. Depois decida quem merece um voto de confiança.
Marcelo Leite
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