quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Dieta emagrece mais do que exercício, mostram pesquisas


O último round da disputa científica entre dieta e exercício físico (qual emagrece mais?) foi vencido pela mudança alimentar.
Atividade física até ajuda a perder uns quilos, mas quem está acima do peso 48,5% da população brasileira, segundo o Ministério da Saúde precisa fechar a boca para ter resultado, de acordo com pesquisas recentes.
Uma delas, publicada em outubro último no periódico "Obesity Reviews", analisou os resultados de 15 trabalhos. Todos mediram o efeito de atividades físicas, como caminhada ou corrida, em pessoas que não fizeram mudanças na dieta.
As conclusões não animam. Na maioria dos estudos (que envolveram 657 pessoas e duraram de três a 64 semanas), a perda de peso foi menor do que a esperada.
"Algumas pessoas conseguem emagrecer bastante, mas, em geral, a prática de atividade física resulta em uma perda de apenas dois ou três quilos", disse à Folha Timothy Church, um dos coordenadores do trabalho. Ele é médico do Centro Pennington de Pesquisa Biomédica, em Louisiana (EUA).
COMPENSAÇÃO
Se toda atividade física causa queima energética e se para emagrecer basta ter um saldo negativo (gastar mais do que ingerir), por que a conta nem sempre fecha?
O trabalho de Church levanta algumas hipóteses. Segundo a principal delas, quem faz exercício acaba compensando a perda de calorias comendo mais. Isso aconteceu em pelo menos dois artigos analisados.
"Não sabemos por que isso ocorre, estamos estudando melhor agora", afirma.
Para o médico do exercício Marcelo Leitão, da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, é comum as pessoas superestimarem os efeitos da atividade física.
"As pessoas têm uma noção errada de que se fazem exercícios podem comer o que quiserem. Se você fizer uma hora de atividade e depois tomar uma cervejinha, já recuperou o que perdeu."
Para gastar 500 calorias (meta diária de quem quer perder meio quilo por semana) é preciso fazer uma hora de atividade de alto impacto, como uma aula de "jump". O esforço pode ir embora em dois pedaços de pizza.
"Uma hora de caminhada por dia muda indicadores de saúde, mas não necessariamente faz perder peso", acrescenta Leitão.
FAZENDO AS CONTAS
"É muito mais fácil cortar calorias do que gastar. As dietas, em geral, são supercalóricas", afirma Julio Tirapegui, bioquímico e pesquisador da Universidade de São Paulo.
Uma pessoa com sobrepeso pode consumir mais de 3.000 calorias por dia e um obeso chega a 5.000, segundo o médico argentino Máximo Ravenna, autor de "A Teia de Aranha Alimentar" (Guarda-Chuva, 264 págs., R$ 38). "Não tem como compensar isso com exercício. Tem que reduzir pelo menos 40% da ingestão de alimentos."
Outro ponto a considerar é que o gasto de energia resultante do exercício não é exato: varia segundo o condicionamento físico e as características pessoais (altura, peso, idade). Na dieta, dá para fazer as contas com precisão e cortar calorias.
Foi calculando tudo que colocava para dentro que Lucélia Bispo, 27, auxiliar administrativa, perdeu 23 quilos em cinco meses, sem exercício. Ela fez uma dieta de pontos de um site especializado.
"Não deixava passar nada, anotava até uma bala", diz ela, que antes já tinha feito regime, sem sucesso.
"Sempre dá aquela impressão de que não vamos poder comer nenhuma besteira. Mas aprendi que se for um pouquinho, tudo pode."
O recorde de Lucélia foi ter perdido 2,3 kg em apenas uma semana.
Depois de emagrecer bastante, ela passou a fazer uma dieta de manutenção. Hoje está com 71 kg. "Só agora vou fazer academia, porque fiquei com um pouco de flacidez."
IMPOSSÍVEL NÃO É
É claro que quem pratica exercícios com regularidade e foge da armadilha da compensação alimentar consegue perder peso.
Na cabeça do psiquiatra Volnei Costa, 31, nunca passou a ideia de fazer regime: "Gosto muito de comer".
Quando viu que precisava emagrecer, manteve o cardápio e começou a treinar pesado seis vezes por semana, alternando musculação e exercícios aeróbicos. Em seis meses eliminou oito quilos passou de 79 kg para 71 kg. Hoje está com 76 kg. "Ganhei massa muscular", diz.
Abandonar o sedentarismo também foi decisivo para a designer Camilla Pires, 23. Com 21 anos e 85 quilos, ela começou a nadar. A atividade motivou mudanças no cardápio. "Passei a pensar mais no que comia. Estava fazendo muito esforço, não podia desperdiçar."
Por um ano, ela juntou a fórmula dos sonhos dos especialistas: adotou uma " alimentação saudável" e se mexeu mais. Além da natação, passou a correr. Perdeu 24 quilos. "Para mim, o que fez a diferença foi o exercício, mas também parei de comer compulsivamente ", conta.
O pesquisador americano Timothy Church, apesar das ressalvas, admite que, com a atividade física, o emagrecimento fica mais fácil. E até dá a receita: 150 minutos de caminhada rápida por semana e 2 dias de treinamento com pesos (20 minutos por dia).
Para Franz Burini, professor da Unesp e médico da academia Reebok Sport Club, não existe atividade física ideal. "O melhor exercício é aquele que é feito", afirma. E não precisa passar uma hora na academia para ter resultado. "Ser fisicamente ativo é se mexer mais todo o tempo. Tem pessoas que treinam uma hora e ficam paradas as outras 23."


JULIANA VINES     









terça-feira, 13 de novembro de 2012

Caderneta de Poupança


A caderneta de poupança é a aplicação mais tradicional e popular do nosso país. Foi instituída, ainda, na época do império, em 1861, para receber as economias dos brasileiros, especialmente aqueles de classes sociais menos abastadas.
É um instrumento financeiro de renda fixa que pode ser contratado em praticamente todos os bancos. Os recursos captados auxiliam a fomentar o setor habitacional, pois os bancos são obrigados a repassar 65% dos recursos para o financiamento imobiliário.
A remuneração da poupança é de 0,5% a.m +TR para as aplicações feitas até o dia 03.05.2012.
Para os depósitos efetuados a partir de 04.05.2012, são aplicadas as seguintes regras:
-       Quando a Selic for igual ou inferior a 8,5% a.a, a remuneração será de 70% da Taxa Selic+TR.
-       Quando a Selic for superior a 8,5% a.a, a remuneração será de 0,5% a.m+TR.
A TR é uma taxa básica referencial de juros que compõe o cálculo de várias operações financeiras, assim como a caderneta de poupança. Em linhas gerais, a TR é a média da taxa dos CDBs de 30 dias das maiores instituições financeiras do país.
Atualmente, a TR apresenta resultado diário próximo a zero o que contribui muito pouco com o rendimento da caderneta de poupança.
O risco da aplicação em caderneta de poupança é baixo em instituições financeiras sólidas e com boa reputação. O aplicador só perderá o recurso caso a instituição financeira vá à falência. Assim como o Certificado de Depósito Bancário (CDB), a Letra de Crédito Imobiliário (LCI) e a Letra Hipotecária (LH), a Caderneta de Poupança conta com uma garantia adicional, do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), até o valor de R$ 70 mil por CPF ou CNPJ, por grupo financeiro ou instituição financeira emissora.
A caderneta de poupança é destinada a qualquer investidor. Normalmente, não existe valor mínimo para iniciar as aplicações, o que torna o investimento bastante atraente. Segundo dados do Banco Central do Brasil (Bacen), nosso país tem mais de 100 milhões de cadernetas de poupança. Deste total, mais de 50 milhões tem por volta de R$ 100,00 aplicados.
A caderneta de poupança evidentemente possui vantagens e desvantagens em relação a outros instrumentos financeiros com características e graus de risco similares.
Entre as vantagens, destacam-se a isenção de imposto de renda (IR) sobre os rendimentos auferidos por pessoas físicas e jurídicas imunes, bem como a liquidez imediata.
Vale destacar que embora a caderneta de poupança admita o resgate diário, se o investidor resgatar os recursos antes da data de aniversário, ele não receberá o rendimento referente àquele mês.
Além da vantagem da isenção de IR e da alta liquidez, na caderneta de poupança não há cobrança de taxas de administração e negociação.
A desvantagem da caderneta de poupança está na pequena remuneração do capital investido. O rendimento costuma ser menor que outras aplicações também conservadoras como LCIs, fundos de investimento RF de baixo risco e Notas do Tesouro Nacional, por exemplo.
Importante observar que as pessoas jurídicas, excetuando as imunes, são remuneradas nas cadernetas de poupança a cada trimestre e pagam Imposto de Renda de 22,5% sobre o rendimento nominal.
Essa taxa é bastante alta e deixa o investimento desinteressante, com risco até de juro real negativo, ou seja, rendimento menor que a inflação.
A seguir uma simples ilustração da rentabilidade das cadernetas de poupança (regra nova e regra antiga) frente ao CDB, Fundos de Investimento Renda Fixa, NTN-B e LCI. Neste caso, poupança, LCIs e CDBs possuem garantia do FGC até 70 mil. 

Samy Dana

Dirceu e Genoino


BRASÍLIA - Os destinos de José Dirceu e José Genoino cruzaram-se nos ares do julgamento do mensalão.
Em todos esses anos, réus, advogados, especialistas e até alguns ministros ponderavam que "não havia uma só prova" contra Dirceu, mas Genoino tinha assinado empréstimos fraudulentos como presidente do PT. O chamado "batom na cueca".
O destino de Dirceu era incerto e o de Genoino parecia selado. Mas, ao longo do julgamento, só uma pessoa endossou essa impressão: o ministro Dias Toffoli, que absolveu Dirceu e condenou Genoino por corrupção.
Apesar dessas questões objetivas, sempre houve uma espécie de certeza íntima em sentido contrário: ninguém acreditava que Dirceu não tivesse nada a ver com a trama nem que Genoino tivesse atuação central.
Não era e não é crível que o mensalão pudesse envolver partidos, parlamentares, Banco do Brasil, Banco Rural, BMG, empresas de publicidade e Delúbio Soares sem que Dirceu estivesse por trás, no comando, centralizando tudo desde a sua sala na estratégica Casa Civil.
Com Genoino, ocorre o oposto: ninguém, até na oposição, acredita que ele fosse decisivo, maquinando, articulando viagens mirabolantes, ora ao Banco Central, atravessando a rua e a prudência, ora para Portugal, cruzando oceanos.
Pesam nessa percepção, além dos autos, as personalidades, histórias, estilos de vida de um e outro. Dirceu é guerreiro, ambicioso, sem limites. Genoino é conciliador, despojado, leva uma vida quase de professor.
Intimamente, os demais ministros gostariam de fazer o contrário de Toffoli: condenar Dirceu, pelo óbvio, e absolver Genoino, que era secundário. Só não o fizeram por causa da assinatura, do batom na cueca.
O ajuste veio na última hora, na definição dos anos na cadeia. Dirceu, o de fato, foi condenado a regime fechado. Genoino, o de direito, a regime semiaberto. Mais do que aritmética, prevaleceu o senso de Justiça aí. 

Eliane Cantanhêde

Relator do mensalão diz que condenados não terão direito a cela especial


Relator do processo do mensalão no STF (Supremo Tribunal Federal), o ministro Joaquim Barbosa disse nesta terça-feira (13) que os 25 condenados no processo não terão direito a cumprir pena de regime fechado em cela especial.
Os ministros do Supremo ainda estão definindo o tamanho das punições. Alguns réus, como o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil), o operador do mensalão Marcos Valério e a dona do Banco Rural Kátia Rabello, receberam mais de 8 anos de prisão e terão que cumprir inicialmente a punição na cadeia.
Barbosa explicou que a prisão especial só cabe em casos de prisão provisória. "A prisão especial é só para quem está cumprindo prisão provisória e não definitiva", disse.
Questionado sobre a situação de Dirceu, o ministro não quis falar em casos específicos dos réus, mas avaliou o cenário geral. "Não vamos falar sobre pessoas", afirmou.
O Código Penal estabelece que os detentores de diploma de curso superior, ministros, governadores, delegados, parlamentares e militares têm direito a "serão recolhidos a quartéis ou a prisão especial, à disposição da autoridade competente, quando sujeitos a prisão antes de condenação definitiva."
Após a definição das penas, o Supremo decidirá sobre o pedido do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, de prisão imediata dos condenados. Ministros ouvidos pela Folha descartam a medida.
Os condenados poderão ser presos quando o resultado do julgamento (acórdão) for publicado ou somente após a análise de todos os recursos propostos.
Barbosa disse que juízes estaduais ou federais vão determinar o local onde os condenados vão cumprir o regime fechado.
Condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) a dez anos e dez meses de prisão, Dirceu, por exemplo, tem como destino mais provável um presídio de segurança máxima no interior de São Paulo, Estado onde tem residência atualmente.
SIMPLICIDADE
Barbosa visitou hoje os presidentes do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Marco Maia (PT-RS), para convidá-los para sua posse na presidência do Supremo no dia 22. Os encontros foram rápidos e descritos por ele como "protocolares". Barbosa passou mais tempo com Sarney, a quem disse conhecer "há muito tempo".
Na sala de Maia, que fez duras críticas ao julgamento do mensalão pela condenação de petistas, ficou cerca de 15 minutos e preferiu ficar em pé.
Ao final do encontro, o relator do mensalão foi questionou sobre sua gestão e garantiu que vai emplacar seu estilo. "Casa um tem seu estilo", disse. "O meu estilo é muita clareza, simplicidade e transparência", afirmou.
O ministro disse ainda que não pode avaliar se o julgamento representa um resgate da política. "Não tive tempo de pensar estou muito ocupado, nem os jornais consigo ler". 

MÁRCIO FALCÃO

Dirceu: pena ‘só agrava a infâmia e a ignomínia’


Em nota veiculada em seu blog, o condenado José Dirceu reagiu ao castigo que o STF lhe impingiu na sessão desta segunda-feira. “A pena de dez anos e dez meses que a Suprema Corte me impôs só agrava a infâmia e a ignomínia de todo esse processo”, anotou. Acusou o STF de valer-se de “recursos jurídicos que violam abertamente nossa Constituição e o Estado Democrático de Direito.” Recursos como “a teoria do domínio do fato, a condenação sem ato de ofício, o desprezo à presunção de inocência e o abandono de jurisprudência que beneficia os réus. ”Dirceu reiterou o lero-lero segundo o qual o julgamento do mensalão ocorre “sob pressão da mídia”. Disse que foi “marcado para coincidir com o período eleitoral na vã esperança de derrotar o PT e seus candidatos.” Repisa a alegação de que não há provas contra ele nos autos. Otimista, anota que o julgamento “ainda não acabou”. Afora a possibilidade de impetração derecursos, o condenado invoca no texto seu “direito sagrado” de “provar” a “inocência”. Dirceuanuncia: “Não me calarei e não me conformo com a injusta sentença que me foi imposta. Vou lutar mesmo cumprindo pena.” Abaixo, a íntegra da manifestação do ex-chefe da Casa Civil de Lula, intitulada de “Injusta Sentença”: Dediquei minha vida ao Brasil, a luta pela democracia e ao PT. Na ditadura, quando nos opusemos colocando em risco a própria vida, fui preso e condenado. Banido do país, tive minha nacionalidade cassada, mas continuei lutando e voltei ao país clandestinamente para manter nossa luta.  Reconquistada a democracia, nunca fui investigado ou processado. Entrei e saí do governo sem patrimônio. Nunca pratiquei nenhum ato ilícito ou ilegal como dirigente do PT, parlamentar ou ministro de Estado. Fui cassado pela Câmara dos Deputado e, agora, condenado pelo Supremo Tribunal Federal sem provas porque sou inocente. A pena de 10 anos e 10 meses que a suprema corte me impôs só agrava a infâmia e a ignomínia de todo esse processo, que recorreu a recursos jurídicos que violam abertamente nossa Constituição e o Estado Democrático de Direito, como a teoria do domínio do fato, a condenação sem ato de ofício, o desprezo à presunção de inocência e o abandono de jurisprudência que beneficia os réus. Um julgamento realizado sob a pressão da mídia e marcado para coincidir com o período eleitoral na vã esperança de derrotar o PT e seus candidatos. Um julgamento que ainda não acabou. Não só porque temos o direito aos recursos previstos na legislação, mas também porque temos o direito sagrado de provar nossa inocência. Não me calarei e não me conformo com a injusta sentença que me foi imposta. Vou lutar mesmo cumprindo pena. Devo isso a todos os que acreditaram e ao meu lado lutaram nos últimos 45 anos, me apoiaram e foram solidários nesses últimos duros anos na certeza de minha inocência e na comunhão dos mesmos ideais e sonhos.
 José Luíz de Oliveira Lima, o advogado de Dirceu, disse em entrevista que aguarda pela conclusão do julgamento para decidir que recursos irá ajuizar. 
Josias de Souza

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Os ruins e os piores


BRASÍLIA - A violência em São Paulo evoluiu de uma guerra entre bandidos e policiais para uma guerra de vaidades entre o governo federal e o estadual, descambou para mais uma guerra partidária entre PT e PSDB e desemboca numa guerra interminável de números. A eleição de 2014 já está começando.
Com as credenciais de ex-secretário nacional de Segurança na era FHC e atual professor do Centro de Altos Estudos de Segurança da PM-SP, o coronel da reserva da PM José Vicente da Silva Filho pega em armas para defender São Paulo.
Incomodado com o noticiário em geral e com uma coluna em que classifico a violência na capital de São Paulo como "calamidade", ele diz que, feitas todas as ponderações de população, a violência no Rio e em Salvador, Maceió, Recife, Fortaleza e Curitiba está num nível bem pior do que a paulistana.
Vai aos (seus) números: a violência no Rio é 80% maior, e a de Salvador, 300%. Mesmo em setembro, quando os homicídios praticamente dobraram em São Paulo, os dados cariocas ainda continuaram 25% mais assustadores.
Na versão do coronel professor, mais do que guerrear para ver que Estado está pior do que o outro, ou que capital é mais violenta do que a outra, convém focar nos dados federais. E eles não são nada bons, diz.
Nas contas de José Vicente, o governo federal gastou 21,26% a menos que em 2011 em segurança e, até agora, só usou 46% do Orçamento de R$ 10,8 bilhões destinados para esse setor tão delicado.
Pior: citando dados da Câmara dos Deputados, acrescenta que o Orçamento da União para Segurança em 2013 foi reduzido para R$ 7,2 bi, 33% a menos do que neste ano.
É assim que, enquanto bandidos assassinam policiais em São Paulo e civis também lá e em todo o resto do país, autoridades, acadêmicos e imprensa participamos de um festival horripilante: quem mata mais? 

Eliane Cantanhêde 

E

Ter um futuro


Num debate no Rio de Janeiro, ouvi do ativista francês Daniel Cohn-Bendit: "Em nossa juventude, lutamos pela liberdade pensando que, com ela, faríamos o futuro que queríamos; hoje, a juventude precisa usar essa liberdade na luta para ter algum futuro".
De fato, a política parece nos restringir a um longo presente, sem aprender com o passado nem projetar o futuro.
O Congresso aprovou o projeto que altera a destinação dos royalties do petróleo. O tema se arrasta desde 2011, quando o Congresso aprovou o marco regulatório do pré-sal e deixou os royalties para depois das eleições, bem entendido.
A polêmica é sobre a divisão entre Estados e municípios produtores e não produtores, que não foi mediada na política e será arbitrada pela Justiça. Mais uma vez, o governo foi atropelado por uma base parlamentar mobilizada por interesses imediatos e pragmáticos.
Tão ou mais grave, mas que não ganha manchetes, é a destinação dos recursos. Prevaleceu a solução mais fácil, em que os governantes têm liberdade para gastar como querem, numa pulverização de recursos "boa de voto" e péssima para o futuro do país.
O petróleo é fonte de energia poluidora, que acelera as mudanças climáticas, mas o mundo ainda não pode prescindir dele. Energias renováveis e mais limpas eólica, solar, biomassa e etanol estão sendo desenvolvidas, mas ainda não são suficientes para substituir totalmente o petróleo. Cabe à atual geração usar o que tem antecipando-se aos problemas futuros.
Nos recursos do pré-sal, devem ter prioridade educação, ciência e tecnologia, além da prevenção das mudanças climáticas. Assim, o Brasil poderá liderar a transição para a economia de baixo carbono. O governo acenou com os recursos para a educação, mas não se empenhou na causa. E abandonou o Fundo Clima, criado no fim de 2009 com parte dos royalties do petróleo. O PL atual o deixa à míngua e compromete a Política Nacional de Mudanças Climáticas.
Como o governo e sua base parlamentar vão manter os projetos de combate à desertificação no semiárido nordestino, combate à erosão e gestão de áreas costeiras, prevenção de desastres naturais, manejo florestal, monitoramento da emissão de gases-estufa?
De onde virão os 10% do PIB para garantir o Plano Nacional de Educação que tramita no Congresso? Como manter os recursos destinados ao Fundo Clima, para cumprir as metas da política de mudanças climáticas? Devemos esperar que a próxima geração pense no futuro quando ele tiver chegado?
Se brasileiros considerarem seriamente a proposição dramática de Cohn-Bendit, "lutar para ter um futuro", e o chamado de Stéphane Hessel, "indignai-vos!", em pouco tempo a Europa pode ser aqui.

MARINA SILVA