terça-feira, 15 de março de 2011

O Japão, Fausto e o átomo

Geoffrey Lean, pioneiro na cobertura de assuntos ambientais (trabalha para o britânico "The Daily Telegraph") foi buscar na lenda de Fausto a sua inspiração para falar da crise nuclear no Japão, na esteira do terremoto/tsunami.
Lean, que tem prêmios por jornalismo investigativo, lembrou nesta segunda-feira que Alvin Weinberg, um dos pioneiros na expansão das usinas nucleares, advertira quando ela se iniciou, faz 40 anos mais ou menos, de que o mundo estava fazendo "uma barganha faustiana" com o átomo. Weinberg acreditava que pessoas como ele estavam fornecendo ao mundo "uma fonte energética mágica", praticamente não-poluente, quando devidamente gerenciada.
Mas a mágica vinha a um custo: o "da necessidade de vigilância [sobre os reatores], à qual não estamos acostumados".
Para quem não lembra ou não leu, Fausto é o protagonista de uma lenda alemã, transformada em obra-prima por Goethe em que um médico e alquimista faz um pacto com o demônio.
O pacto com o suposto demônio nuclear lembra o jornalista britânico cobrou seu preço primeiro no acidente de Three Mile Island, faz 32 anos (tema de "Síndrome da China", filme estrelado por Jane Fonda), depois no de Chernobyl, na hoje Ucrânia, há 25 anos, e agora em Fukushima, Japão, cujo reator, aliás, saiu do Oak Ridge National Laboratory, dirigido por Weinberg.
Transfiro ao leitor a pergunta que Geoffrey Lean faz: "O suprimento de uma bem desenvolvida fonte de energia, de uso reduzido de carbono [o poluente carbono] vale o preço de um cataclisma que pode se seguir a um lapso humano na vigilância ou a um ato de Deus? O papel que [a energia nuclear] pode desempenhar em ajudar a evitar uma catástrofe quase certamente de lento desenrolar [alusão às mudanças climáticas] justifica o risco de um acidente calamitoso?"
Boa parte do mundo está se fazendo a pergunta de Lean, especialmente no próprio Japão, que tem 54 reatores nucleares em operação, o terceiro maior país em energia nuclear, atrás apenas de Estados Unidos e França.
Afinal, apesar de o Japão estar reconhecidamente bem preparado para lidar com terremotos e tsunamis, a extensão da devastação provocada pelo de sexta-feira serve como lembrança de como os países permanecem vulneráveis à calamidades em larga escala.
Escreve, por exemplo, outro veterano jornalista, Syed Fattahul Alim, pensando na sua pobre Bangladesh:
"A situação do Japão, que pertence ao grupo das nações mais ricas e mais tecnologicamente avançadas do mundo, fornece um clássico exemplo de como os humanos ainda estão desamparados em face da fúria da natureza".
É óbvio que diante dessa fúria, a "vigilância" que se exige sobre reatores nucleares fica no mínimo dificultada.
É por isso que há um intenso zumzum no planeta em torno de um eventual retrocesso no que antes de chamava de "renascença do nuclear".
Em teleconferência organizada nesta segunda-feira pelo Council on Foreign Relations, Michael Levy, pesquisador-sênior do Council para energia e meio-ambiente, dizia ser cedo demais para uma avaliação sobre a eventualidade do retrocesso.
Levy acredita que, por enquanto, o acidente no Japão confirmará cada lado em seu canto. Os que são contra a energia nuclear apontarão para o risco de acidentes; os que são a favor dirão que, mesmo em um acontecimento de imensa envergadura como o do Japão, há uma razoável contenção de danos (por enquanto, por enquanto).
O pesquisador acrescenta que a tal renascença do nuclear já vinha enfrentando outros problemas, que reduziram a sua velocidade, mas que ainda está por se ver se os problemas no Japão "causarão ou não uma mudança decisiva" nas escolhas energéticas nos países que usam a energia nuclear em larga escala.
Acho dispensável dizer que esse não é um assunto que diga respeito apenas aos amigos e aos inimigos do átomo: substituir a energia nuclear, se for o caso, tem implicações óbvias para as demais fontes energéticas, abrindo inclusive a hipótese de outro pacto faustiano, agora com os poluentes, invertendo a equação de 40 anos atrás.

Clóvis Rossi

Cortázar inédito

Conheci Aurora Bernárdez, a viúva do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), em Madri, em 2005. Eu estava de férias, mas acompanhava uma amiga jornalista espanhola na apresentação de uma coletânea de textos póstumos do autor. Achei que Bernárdez era um tanto diferente de outras viúvas célebres. Discreta e prática, não se apresentava como musa do morto, como tantas, muito menos o infantilizava, como faz a de Jorge Luis Borges, Maria Kodama.
Lá pelas tantas, um colega perguntou-lhe se ainda havia algo "grande" para vir à tona do espólio deixado por Cortázar. Ela respondeu simplesmente: "Há alguma coisa sim, esperem mais um pouco".
E eis que, passeando semana passada por uma das incríveis livrarias de Santiago (Chile), topei com "Cartas a los Jonquières" (Alfaguara), livro lançado no meio do ano passado em Buenos Aires e só agora no restante do mundo hispano-americano.
Editado por Bernárdez, hoje com 90 anos, é composto por um conjunto de 126 cartas e 13 cartões-postais que Julio Cortázar enviou ao amigo Eduardo Jonquières e sua família entre fevereiro de 1950 e fevereiro de 1983. Estavam com a viúva deste, María Rocchi, que só algum tempo depois da morte do marido (em 2000) os encontrou e os entregou a Bernárdez. Foram escritas à mão ou à máquina e correspondem ao período que vai desde a primeira viagem de Cortázar à Europa, seguido de sua instalação definitiva em Paris (1951), até poucos meses antes de sua morte.
Cortázar havia conhecido Jonquières, que era quatro anos mais jovem que ele, em meados dos anos 1930, na Escuela Normal Mariano Acosta, em Buenos Aires. Este também era escritor, além disso pintava, embora nunca tenha atingido a fama. Por conta disso as artes estão tão presentes nesses diálogos epistolares que duraram mais de 30 anos. Em 1959, Jonquières e a família também se mudam a Paris, o que causa uma diminuição repentina da correspondência, uma vez que esta já não era tão necessária.
Diferentemente de Jorge Luis Borges, que deu muitas entrevistas e deixou revelar mais sua vida pessoal, de Cortázar sempre se soube pouco a esse respeito, tanto que afirmava dele o peruano Mario Vargas Llosa: "um homem eminentemente privado, com um mundo interior construído e preservado como uma obra de arte", como bem lembra o co-editor do livro, Carlos Álvarez Garriga.
Bem, as "Cartas" desfazem um pouco desse mito. Mostram um Cortázar amoroso com os amigos e expondo-se bastante. O que primeiro surge no início da correspondência são as dificuldades de mudar de Buenos Aires para Paris. Desde a adaptação às novas língua e cultura, até o desconforto material, de quem partiu sem levar muitos recursos. Reclama do apartamento apertado, da pouca luz elétrica que há no prédio em que passa a viver e de não poder comprar suficientes livros e de nem mesmo possuir estantes para colocá-los. Nada disso, porém, o impedia de consumir novelas "como um louco".
Em uma das missivas, chega a pedir ao amigo que lhe mande alguma revista literária, que em Paris vê nas bancas mas que não pode comprá-las, e enumera desejar, entre tantas, "La Nef", "Temps Modernes" e "Cahiers du Sud".
Também fala da depressão de partir, ainda que demonstre isso com certo bom humor. "Ir-se não é nada, a coisa é dar-se conta de que há uma mecânica de chiclete no processo, pois é como se você ficasse aderido e aos poucos vai-se estirando". Ou quando diz: "apenas a contemplação de um envelope, ou o cheiro do papel, me devolvem a chicotadas a Buenos Aires."
É também comum referir-se ao fato de dormir pouco, e de não estar contente. É de se imaginar que os amigos do lado de cá do Atlântico escrevessem estimulando-o a alegrar-se (perdeu-se toda a correspondência do lado dos Jonquières), porque Cortázar responde sempre agradecendo a compreensão dos amigos.
Também Eduardo demonstra sua infelicidade mais de uma vez, e Cortázar o aconselha a ir ver um psicanalista. A recomendação para buscar essa verdadeira instituição portenha aproxima Cortázar de seus conterrâneos, que muitas vezes o tomam como alguém que se "europeizou" desde muito cedo em sua vida literária e costumes.
Mas boa parte das cartas dedicam-se mesmo a mostrar as impressões de Cortázar sobre um mundo que vai descobrindo a partir de inúmeras viagens, pela Europa, África, América e Ásia. Cada novo lugar que descobre surge como um enorme feito, devido à intensa curiosidade do escritor e seus poucos recursos. "É muito curioso que os ´grandes passos´ costumo dar são como se, no fundo, não se tratassem disso. Penso que o desejo acumulado termina por arrancar a verdadeira realidade das coisas", escreve.
Há cartas assinadas de diversos lugares, França, Argentina, Uganda, Áustria, Cuba, Suíça, Nicarágua, Índia, Dinamarca, Brasil, Itália, Inglaterra e México, entre outros. Das visitas ao Brasil, não é muito o que relata. A carta assinada desde o Rio de Janeiro, em 1954, é um pedido de ajuda ao amigo para que o auxilie a resolver um problema com a compra de uma passagem de navio.
Já o postal enviado desde Brasília, em 1973, traz mais detalhes de seu passeio: "vou conhecendo este Brasil (Ouro Preto, Congonhas, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília) e amanhã estarei na Bahia com Caetano Veloso e os outros cronópios da música. Faz um calor `del quinto carajo´, mas Niemeyer, que grande tipo! Volto a São Paulo onde os poetas (milhares) me levarão a seus países concretistas, com Haroldo de Campos e Décio Pignatari à frente."
A correspondência mostra como o escritor vai surgindo a partir do rapaz de 30 e poucos anos que emigra das margens do Prata sem ter muito mais do que ilusões em conhecer o Velho Mundo e tornar-se, quiçá, um escritor. Do encantamento com as novas leituras, passa-se à descrição das dificuldades em publicar, a vinda à tona dos primeiros livros, como lidou com outros autores e editores.
O que não muda nunca é o carinho e o interesse pelas coisas do amigo que ficou para trás. Dedica parágrafos inteiros e às vezes páginas de suas cartas à sua mulher, María, e aos filhos do casal, daí a opção dos editores por deixar o título no plural, ainda que o destinatário principal das cartas seja sempre Eduardo.
A indústria de obras póstumas está espalhada pelas diversas áreas da cultura e nem sempre lança no mercado coisas boas. Não é o caso de "Cartas a los Jonquières", que acaba se transformando na autobiografia que o autor nunca escreveu.
Fica a dica para que algum editor brasileiro se anime a publicar o volume no Brasil.

Sylvia Colombo

Uma revolução na educação pública

Imagine uma escola pública dirigida pela comunidade, com a liberdade de escolher e demitir os diretores e os professores, além de estabelecer seu próprio currículo e o número de horas que os alunos estudam. Esse tipo de escola independente gera um intenso debate nos Estados Unidos, mas virou um objeto de desejo dos pais e criou enormes filas de espera e, por isso, apesar da resistência dos sindicatos e dos burocratas, se dissemina.
Nesta semana será apresentado, em um encontro sobre educação promovido pelo MIT em São Paulo, um detalhado estudo feito por economistas americanos mostrando que, nas áreas urbanas deterioradas, essas escolas, aqui chamadas de 'Charter', fazem o aluno prosperar expressivamente.
Os motivos que levam a essa melhora são foco de intensa polêmica. Mas o fato é quanto maior for a pressão por uma educação pública de qualidade, maior a vontade de experimentar soluções, fugindo dos modelos tradicionais e maior será o foco no mérito.
Talvez não seja a solução para melhorar a escola pública, mas é uma das soluções. E precisa muita vontade de brigar para tirá-la do papel.
PS - Coloquei na internet (www.catracalivre.com.br) o texto que será apresentado pelo MIT (em inglês), mas também um ótimo relatório em português feito pelo Instituto Fernand Braudel sobre as escolas independentes.

Gilberto Dimenstein

domingo, 13 de março de 2011

Comissões!



Blog de Josias de Souza

(C)omissão!



Blog de Josias de Souza

Comissão de frente!



Blog de Josias de Souza

sexta-feira, 11 de março de 2011

Paciência


A paciência é uma qualidade fugaz.
Queremos o que queremos quando queremos.
Felizmente, nossas vontades só são realizadas no momento certo.
Mas a espera nos dá a impressão de que
nossas preces não foram ouvidas.
Precisamos acreditar que a resposta virá na hora certa.
Já pensou como nossas vidas seriam diferentes
hoje se os pedidos de semanas, meses, anos atrás tivessem
sido atendidos na mesma hora?
Cada um de nós percorre um caminho único,
com lições especiais.
Assim como um bebê precisa engatinhar antes de andar,
nós temos de ir devagar,
dando os passos certos rumo ao crescimento.
A frustração só existe porque nosso relógio
funciona num tempo diferente do de Deus.
Mas podemos ter certeza de que nossas preces
serão atendidas algum dia, em algum lugar, e para o nosso bem.