sábado, 4 de dezembro de 2010

Alien, o oitavo (nono, décimo...) passageiro!



Blog de Josias de Souza

Rio, drogas e violência

As cenas de guerra no Rio de Janeiro evocam as soluções fáceis de sempre: colocar as Forças Armadas no morro até prender o último traficante (a favorita da direita) e descriminalizar as drogas (a campeã da esquerda).
Não discordo inteiramente. Acho que lugar de bandido perigoso é a cadeia mesmo e defendo a legalização de todos os entorpecentes. Receio, contudo, que, nenhuma dessas medidas, isoladamente ou mesmo em conjunto, constitua solução rápida para o problema da violência urbana, no Rio ou em qualquer outra cidade do país.
Em relação aos traficantes, o que temos é basicamente um problema de mercado. Estudo acadêmico citado na Folha de domingo estima que a indústria da droga empregue 16 mil pessoas na cidade do Rio de Janeiro (mais do que a Petrobras) e movimente R$ 633 milhões anuais (mais do que o setor têxtil no Estado).
A menos que, num passe de mágica, eliminássemos toda a demanda, para cada FB preso, surgirão três ou quatro jovens candidatos a substituí-lo. Muito provavelmente disputarão o posto à bala, tornando a situação ainda mais perigosa em alguns pontos estratégicos da cidade. A própria existência de milícias não é senão uma tentativa de certos membros de nossas valorosas polícias de morder um naco desse mercado.
Vale lembrar que, embora as autoridades paulistas o neguem até a morte, alguns estudiosos como a socióloga Camila Nunes Dias sustentam que um dos fatores que trouxeram relativa paz a São Paulo foi a unificação do comando do tráfico sob o PCC. A centralização não apenas acabou com as rixas entre criminosos como ainda impôs um rígido código de conduta aos bandidos. Quem cria confusão de graça é severamente punido.
Uma solução bastante cínica, portanto, seria ajudar alguma das organizações que disputam o tráfico no Rio a açambarcar o mercado, monopolizando o setor. A violência aparente, que é a percebida pela população, provavelmente se reduziria. O problema é que isso quase certamente agravaria um outro efeito pernicioso do tráfico, que é sua infiltração nas estruturas do Estado. Aqui, a ameaça ganha ares institucionais.
Os cartéis de drogas têm, como toda megacorporação, interesses a defender. A diferença entre os traficantes e executivos de grandes empresas é que os primeiros não precisam nem parecer que cumprem as leis. Enquanto uma multinacional contrata firmas de lobby e assessorias de imprensa na esperança de influenciar políticos e jornalistas, os cartéis simplesmente corrompem autoridades. Quem recusar a oferta pode ser eliminado.
O risco que o narcotráfico traz para a democracia foi uma das razões que levaram o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seus colegas César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México) a fundar a Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, que defende o fim da 'guerra contra as drogas' e mudanças paulatinas rumo à legalização. (É incrível como ex-autoridades passam a ver as coisas com clareza depois que deixam seus cargos).
Isso significa que a saída é o 'liberou geral'? Sim e não. Se o que você deseja é um sistema minimamente racional para lidar com a questão das drogas, a resposta é afirmativa. Se seu objetivo é apenas reduzir a violência no curto prazo, então, a legalização não resolve muito.
Como já escrevi antes neste espaço, é até possível que, num horizonte de tempo mais dilatado, uma eventual legalização diminua os lucros e, consequentemente, o poder de fogo das quadrilhas, mas, no curto prazo, seria mais realista esperar um aguçamento dos crimes bárbaros.
A venda de cocaína e assemelhados não é exatamente uma vocação para jovens talentosos. Se a legalização ocorresse amanhã, é muito pouco provável que os traficantes de hoje vestissem uma gravata e se convertessem em respeitáveis homens de negócios.
Privados do lucro fácil das drogas --a única modalidade criminosa na qual as supostas vítimas (os usuários) fazem fila para ser voluntariamente 'prejudicadas'--, é quase certo que os integrantes do exército do tráfico se lançariam com fúria redobrada na consecução de delitos realmente violentos, como assaltos e sequestros, para os quais as vítimas não costumam fazer fila.
A grande verdade é que não existe solução para o problema das drogas. O mundo não é um paraíso idílico; ao contrário, é um lugar cheio de perigos, que incluem várias centenas de substâncias psicoativas pelas quais nossos cérebros pessimamente projetados têm uma fraqueza muitas vezes fatal. Não está no poder de nenhuma lei modificar essa realidade bioquímica. Pelo menos com o atual nível de tecnologia médica, só o que a sociedade pode fazer é tentar modular as repercussões desse indesejável pendor humano.
E o meu receio é o de que a linha proibicionista adotada ao longo do último século mais acrescenta do que subtrai dificuldades. A principal delas é que se trata de um contrassenso econômico. Investimos alguns bilhões de dólares por ano na repressão, cujo principal efeito é elevar o preço da droga, ampliando as margens de lucro e, assim, o poder de aliciamento dos traficantes. Como se não bastasse, na outra ponta ainda gastamos mais alguns bilhões em tratamento médico para os dependentes (aí também incluídos os usuários crônicos de tabaco e álcool).
O pressuposto é o de que, sem a proibição e a repressão, a prevalência do uso de drogas ilícitas seria significativamente maior. É difícil discordar. A oferta mais livre de substâncias viciantes tende a aumentar o número de pessoas que as experimentam e, por conseguinte, a fração dos que desenvolvem dependência química. O tamanho preciso dessa encrenca, entretanto, permanece uma incógnita. Como nenhum país experimentou ainda a legalização, não se tem a menor ideia de quanto a prevalência aumentaria.
Há aqui duas 'escolas' de pensamento. Para os que tendem a reforçar o aspecto bioquímico do fenômeno, não há limite para o vício. Se submetermos uma dada população de ratos a um regime de ingestão forçada de cocaína ou álcool, teremos, ao cabo de poucas semanas de uso contínuo, 100% de dependentes, que experimentarão tolerância, 'craving', síndrome de abstinência na retirada e demais sintomas clássicos.
Só que nem o mais entusiasta proponente da legalização está sugerindo que heroína seja despejada em nossos reservatórios de água. Há uma grande diferença entre permitir e obrigar. E, ao longo de centenas de milhares de anos, ocorreram inúmeros experimentos naturais de exposição de humanos a drogas. Até onde se sabe, por mais abundante que fosse a oferta, foi sempre uma minoria da população a que teve problemas mais sérios de dependência. Há quem sustente que, em condições 'naturais' (isto é, sem um cientista para entuchar cachaça e pó nas pobres cobaias), a predisposição para o vício resulta de uma interação entre as propriedades bioquímicas das substâncias e a personalidade do indivíduo que as utiliza. Nesse caso, a legalização não implicaria necessariamente uma explosão apocalíptica no número de viciados. As pessoas com propensão mais acentuada para a dependência já 'militam', seja no mercado legal, como alcoólatras, seja no ilegal, ou mesmo misturando um pouco de tudo. O incentivo ao consumo proporcionado pela legalização atingiria mais a população não tão afeita à dependência.
Há aqui um 'caveat'. A exemplo do que ocorreu com o álcool quando descobrimos o processo de destilação no século 12, inovações químicas têm tornado as drogas ilícitas bem mais poderosas do que eram no passado. Assim como o alcoolismo se tornou um problema mais grave com o advento do uísque, da vodca, da cachaça e de todas as bebidas destiladas, as novas variedades de maconha e as drogas sintéticas podem estar driblando os mecanismos naturais de defesa que o cérebro tem contra o vício. Embora nós não os conheçamos bem, eles existem. Acho que estamos há algumas décadas focando o elemento errado. A pergunta-chave não é por que as pessoas se viciam, mas sim por que a maioria dos humanos não sucumbe às drogas. Mesmo a mais prevalente delas, o tabaco, nunca escravizou mais de 30% da população adulta de um país.
É claro que, para uma estratégia de legalização parar em pé, ela precisa observar certas precondições da racionalidade que nem sempre são colocadas abertamente. Em primeiro lugar, é preciso que seja uma política ampla, que abranja todas as drogas e não apenas as preferidas pelos filhos da classe média influente. O 'statu quo' não muda se liberarmos a maconha, mas mantivermos a cocaína e a heroína proibidas.
É necessário ainda que as substâncias sejam efetivamente legalizadas e não apenas toleradas. Isso implica a criação de empresas que explorem a atividade, a abertura de pontos de venda e o recolhimento de tributos. Eu, de minha parte, criaria a Narcobrás. Aqui, as ineficiências típicas do setor estatal adquiririam uma virtude pública.
Evidentemente, nenhuma dessas ponderações é sólida o bastante para basearmos uma política nacional para as drogas, mas elas são suficientes para pelo menos questionarmos o automatismo das posições proibicionistas. Eu mesmo tenho dúvida em relação a vários pontos: será que não é melhor seguir fingindo que vivemos num mundo legal e que as leis nos protegem do mal que ronda lá fora? Se concluirmos pela legalização, devemos proceder de uma vez ou tateando, de modo a não criar nenhuma situação muito irreversível? Que sinais de alerta consideraríamos necessários para eventualmente rever a estratégia? Qual carga de impostos devemos estabelecer sobre esses produtos?
O que me faz pender definitivamente para o lado da legalidade não são as considerações epidemiológicas, mas a convicção filosófica de que existem limites para o poder de interferência do Estado sobre o cidadão. Nem eu nem ninguém que acredita um pouquinho na razão tomaria parte num contrato social no qual renunciaria a decidir o que pode ou não ingerir. Esse é um direito que, acredito, está no mesmo pacote do da liberdade de ir e vir e de dizer o que pensa.
Voltando à violência no Rio (e no resto do Brasil), tenho uma boa notícia. Não importa muito o que façamos, as coisas vão melhorar. Apesar de atuarem aí inúmeras variáveis, há o fator demográfico que é bem conhecido e extremamente poderoso. Como a esmagadora maioria dos crimes e demais atos de violência é cometida por homens entre 18 e 25 anos (isso vale para qualquer país e qualquer época), o envelhecimento da população, que já está em curso, é quase uma garantia de que todos os indicadores de crime irão cair nas próximas décadas. É claro que prender bandidos e trazer um pouco de racionalidade à questão das drogas ajudariam bastante.
PS -- Não poderei escrever a coluna da semana que vem, de modo que a retomo no dia 16.

Hélio Schwartsman

Crônica de viagem e da água

VENEZA - A sirene toca às 6 da matina. Baita susto. Desde a primeira guerra do Golfo (1991), o toque de sirene me aterra. Há 20 anos anunciava a iminência de um ataque iraquiano a Israel. Nada assusta mais do que saber que um monstro (no caso um míssil) está voando na escuridão e pode, de repente, cair na tua cabeça.
Agora, indago só com o olhar à minha mulher se é aviso de fogo no hotel ou outra coisa. Perita em Veneza, ela me diz que é aviso de acqua alta, como eles chamam maré alta por aqui, fenômeno habitual de outubro a março. Mais ou menos como as chuvas de verão em São Paulo.
Com uma diferença essencial: aqui não precisa chover para alagar. Basta uma conjunção de fatores naturais. Azar dos venezianos. Não podem xingar o prefeito de turno, como fazemos os paulistanos.
Duas horas depois da sirene, despertos de fato, vemos pela janela que a acqua é alta p'ra xuxu: o pessoal anda com água pouco abaixo da cintura. E consta que 55% da cidade está alagada da mesma forma.
Só lá pelo meio-dia dá para sair do hotel, que fica atrás da Piazza de San Marco, o coração da cidade e também seu ponto mais vulnerável. Mesmo assim, na praça propriamente dita é forçoso caminhar pelas passarelas conhecidas pelas fotos clássicas nesse tipo de evento.
O inconveniente vira festa para a Babel de turistas que invadem a cidade todos os dias. Sotaques para todos os gostos, inclusive (ou principalmente) o nordestino do Brasil, em quantidade industrial, muito superior à das quatro visitas anteriores (não foi por acaso que Dilma Inácio da digo Rousseff ganhou).
Cenas explícitas da lei da oferta e da demanda: quando saímos, com água já baixa mas ainda presente, as botas de emergência (um plástico com reforço no pé e jeito de amarrar na coxa) custava 10 euros. Na volta, quando o sol já havia saído e até ido embora (escurece pouco antes das cinco, duas da tarde em Brasília), e levado junto a acqua alta, o preço caiu para 7 euros.
Com água ou sem, a cidade é um espetáculo único.

Clóvis Rossi

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Sonho de consumo de Dilma!



Blog de Josias de Souza

Cadê o meu, pergunta o PMDB?

Presidente eleita, Dilma Rousseff começa a enfrentar sua maior dor de cabeça na montagem de sua equipe ministerial. Definir o espaço do PMDB em seu futuro governo. Os peemedebistas estão inquietos e desconfiados. Até aqui, ouviu mais falar em perdas do que em ganhos ministeriais. Sua fatia de poder cairia de seis para três pastas. Diante das primeiras reações contrárias, subiu para quatro, mas mesmo assim abaixo de todas as expectativas peemedebistas.
Uma equação totalmente desfavorável para quem decidiu se aliar formalmente ao PT, indicar o vice da chapa e entregar um belo tempo de TV para Dilma Rousseff. Tanto que as queixas foram encaminhadas aos ouvidos da presidente eleita, que agendou reunião com seu vice, Michel Temer, presidente do PMDB e da Câmara dos Deputados. Reunião realizada na Granja do Torto, na companhia do presidente do Senado, José Sarney, e do senador Renan Calheiros (PMDB-AL).
O primeiro passo de Dilma para tentar acomodar e acalmar o PMDB foi dado. A presidente eleita indicou que desistiu de colocar um nome de referência técnica, altamente qualificado, no Ministério da Saúde. Com isso, abandona, pelo menos até aqui, a ideia de retirar a pasta do rateio político. E aceita pôr no comando da pasta um peemedebista ligado ao governador Sérgio Cabral (RJ).
Com isso, espera baixar a temperatura interna dentro do próprio PMDB. Cabral resiste à nomeação de Moreira Franco para o Ministério das Cidades, uma indicação do vice Michel Temer. Deve mudar de posição emplacando na Saúde um nome ligado a ele. Nome que ele já até anunciou como futuro ministro da Saúde, Sérgio Côrtes, seu secretário de Saúde. Fez o anúncio antes mesmo de a presidente eleita oficializar o nome. Cabral deve saber o risco que corre ao dar tal passo.
Afinal, na equipe de transição, o que se diz é que Côrtes é realmente o nome mais provável para a Saúde, mas terá de sobreviver ao sereno para emplacar. Traduzindo. Se não surgirem novas acusações na imprensa contra ele que possam comprometer seu caminho, vira realmente ministro da Saúde.
Na reunião com Dilma, o PMDB recebeu a garantia de que terá o comando das pastas da Agricultura e de Minas e Energia. Sonha e tem a promessa de comandar o Ministério das Cidades. O detalhe, até agora, é que os senadores peemedebistas teriam de assumir Moreira Franco como indicação deles, sendo que ele é muito mais ligado a Temer.
Ficou acertado, pelo menos do lado de Dilma, que o partido perderá o Ministério da Integração Nacional e o das Comunicações. O primeiro vai para o PSB. O segundo, para Paulo Bernardo, atual ministro das Comunicações. Manterá um que ele não contabiliza como seu, Defesa, com a manutenção de Nelson Jobim no posto.
Essa, porém, é a apenas a primeira das batalhas. A guerra vai prosseguir. A proposta veio de Dilma. O PMDB ainda tem de aceitar. Depois de definidos os ministérios, há ainda toda distribuição das presidências e diretorias das principais estatais. O PMDB comanda uma boa parte do setor elétrico, manda na Transpetro, ocupa os Correios e tem na sua esfera de poder a Funasa, entre tantos outros cargos. Essa segunda batalha não ganha tanto destaque na mídia, mas é encarada pelos parlamentares, muitas vezes, como mais importante do que muito ministério pelo poder de fogo nas suas regiões.
Ou seja, o tempo é curto, falta apenas um mês para a posse de Dilma Rousseff, e ela tem pela frente muitos obstáculos para transpor.

Valdo Cruz

O terror à solta

* Assim é impossível chegar ao trabalho.
* Essa falta de segurança em toda parte.
* Filho meu não vai à escola.
* Sempre, sempre à espera de uma providência das devidas autoridades.
* Parece até que é a primeira vez que isso acontece.
* Essa gente não aprende ou não quer aprender?
* Melhor equipados que eu, estão. Sentirão o mesmo medo que sentimos, esta insegurança já familiar?
* Até mesmo ficar em casa parece perigoso.
* E mesmo assim não há garantia. Nunca houve.
* Que dirá por os pés lá fora?
* Olha ali uma incauta tentando atravessar a rua.
* Pronto, essa já era. Eu sabia. Pobre diaba. Onde será que queria ir?
* Deus protege as crianças mesmo. Duas na esquina brincam como se nada estivesse acontecendo.
* O telefone não funciona. Bem que eu deveria ter ido de celular. Fui burro.
* Nesta terra, o que é que funciona nestas horas?
* Haverá algum santo pra gente rezar numa situação assim?
* Só tenho perguntas. Eles, os homens --politiqueiros, demagogos--, na hora das eleições têm todas as respostas, tudo solucionado bonitinho.
* Bem feito pra mim, que é para eu deixar de ser besta e acreditar neles.
* Eu quero o direito de ir e vir, eu quero a paz, eu quero a segurança, eu quero o bem estar prometidos para mim e a minha família. Cadê? Que gato gordo e guloso terá comido?
* Me deu uma coisa, uma espécie de luz, e eu fui conferir a água. Nada. Nem uma gota pinga de torneira alguma. Faz sentido.
* Olha um carro tentando subir a ladeira. Ou melhor. Ouve só um carro. Não paga dez que ele não vai chegar a lugar nenhum.
* Pelo menos ainda tem luz. Dá para acompanhar a pauleira pela televisão.
* O casal do lado pediu para ver com a gente. Ainda perguntou se podia trazer os dois filhos maiorzinhos. Claro. Tudo bem.
* Expliquei que não tinha cerveja gelada para oferecer. Nem nada de fresquinho.
* Pelo menos fazem companhia.
* E nós a eles.
* Ninguém menciona o fato. Mas a verdade é que juntos a gente aguenta melhor o tranco.
* Viver é se virar --pra cá ou pra lá-- na hora dos trancos.
* E parece que tudo é um tranco após o outro.
* Isso é vida, Senhor, isso é vida, pergunto eu?
* Ano passado foi a mesma história. Este ano piorou muito mais. Agora, se vida ainda tiver, esperar pelo ano que vem.
* Todos nós vidrados na televisão. Muita falação. Linguagem mal empregada. Uma gente que se diz profissional nervosa sem dizer coisa com coisa.
* Informação mesmo, no duro, não tem nenhuma a dar.
* Mas devem pegar um montão de gente vendo, pois outro remédio não existe. Sofrimento dos outros dá um dinheirão.
* Uma pausa para nossos comerciais.
* Bando de vagabundos.
* É, estão gastando. Daqui de dentro de casa dá para a gente ouvir helicóptero. Mais de um. Alguém faturou alto. Só não faturaram soluções,
* Longe, uma voz num megafone. Comandante dando ordens. Desordenadas todas, por certo. Garanto que está com a farda impecável, empostada como sua voz. Contei três erros de concordância em duas frases berradas.
* Enfim, na tela, alguém com uma notícia vagamente concreta. O frio que não se via há mais de 17 anos na Escócia e no País de Gales deverá continuar por pelo menos mais uma semana. E muita neve caindo. Aqueles mapinhas incompreensíveis. A coisa se encaminha para o sudeste. À noite, em quase todo o país, uma média de -8ºC. De dia, com o fator vento, idem.
* Uma nevasca pegou o caminho de Londres. Essa vai direto para onde deveria ter ido de início. Palácio e Parlamento. De dia, o meteorologista (na verdade uma moça que nunca deveria ter parado de vender liquidificador) anuncia, até o fim-de-semana, uma máxima de 2ºC. Acima de zero, promete ela.
* E sorri. De quê?

IVAN LESSA

Clima e saúde andam juntos

A 16ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Mudança do Clima (COP-16) começou anteontem em passo de cágado, no México. Lamento predizer que será mais um fracasso na série de COPs que vem claudicando desde Bali (2008) e Copenhague (2009).
Lamento mesmo: preferiria mil vezes morder a língua e ver Cancún produzir um acordo global de redução de emissões de gases do efeito estufa, com força jurídica e maior ambição que o Protocolo de Kyoto. São múltiplas as indicações, porém, de que isso não vai acontecer.
O ideal seria um compromisso capaz de restringir o aquecimento médio da atmosfera a 1,5°C ou no máximo 2°C neste século, pois esquentar vai de qualquer jeito (ou melhor, já esquentou, 0,7°C). Considera-se que esse é um limite razoavelmente seguro, dentro do qual seria possível adotar medidas de adaptação de custo não proibitivo.
Não vou incomodar o leitor desfiando o rol de razões conspirando contra um novo protocolo do clima. Nem com os detalhes ultraburocráticos, ultratécnicos e ultrachatos da negociação internacional, que se arrasta desde 1992. Melhor falar de coisas mais concretas relacionadas com o clima, como a saúde --a sua, a minha, a nossa saúde.
Chegou às mãos da coluna um documento interessante do Painel Médico Inter-Academias, que em inglês atende pela sigla Iamp. Trata-se de uma "Declaração sobre os Co-Benefícios da Saúde para Políticas de Combate às Mudanças Climáticas", um título que decerto não foi formulado por jornalistas nem publicitários. Mas vale a pena ler, o que você pode fazer, em português, aqui.
É bom inverter o ponto de vista, muitas vezes. Neste caso, o que o Iamp fez --com a participação da Academia Brasileira de Ciências e 37 associações congêneres-- foi perguntar se medidas de contenção de emissões de gases do efeito estufa teriam um efeito significativo sobre a saúde pública. E, em caso, afirmativo, se tal benefício ajudaria a cobrir o custo de adoção das medidas. Na realidade, mais que perguntar, o documento afirma que é esse o caso.
Exemplo: um programa de dez anos para disseminar 150 milhões de fogões de baixa emissão na Índia, em substituição aos fogões a lenha e fogueiras tradicionais, poderia evitar 2 milhões de mortes prematuras no período. A substituição reduziria a presença, no ambiente doméstico, do poluente carbono elementar (fuligem). É a principal causa da doença pulmonar obstrutiva em mulheres indianas, além de favorecer infecções do trato respiratório inferior em seus filhos.
Um quarto das emissões mundiais de dióxido de carbono (CO2) provém dos meios de transporte. Se mais pessoas fizerem percursos a pé ou de bicicleta, nas cidades com ambiente adequado para isso, não só diminuirá a poluição como sua saúde melhorará. Calcula-se que um programa de estímulo à "mobilidade ativa" em Londres diminuiria em 10% a 20% as doenças cardíacas, em 12% a 13% o câncer de mama, em 8% a demência senil e em 5% a depressão.
Depois do dióxido de carbono, um gás importante do efeito estufa é o metano, produzido em quantidade significativa nos arrozais alagados e no rúmen do gado bovino (por favor, chega de piadas sobre arrotos etc. de bois). O Brasil, que tem baixíssima ocupação de pastos em sua atrasada pecuária extensiva (menos de uma cabeça por hectare, ou 10 mil m²). Por aqui, uma pequena melhora na produtividade e no manejo já ajudaria a reduzir as emissões.
Imagine agora que, além de modernizar a pecuária nacional, o consumo de carne fosse diminuído. "Uma redução de 30% na ingestão de gordura saturada de origem animal tem o potencial de redução de 15% das doenças cardíacas em Londres e 16% em São Paulo", informa o manifesto do Iamp.
A tese mais audaz do painel é que os benefícios para a saúde de medidas pró-clima, se devidamente quantificados, podem superar o próprio custo de sua adoção. É um raciocínio recorrente, que inspirou, entre outros, o célebre estudo de 2006 coordenado por sir Nicholas Stern para o governo britânico, Stern Review : o custo da inação diante da mudança do clima será maior que o de combatê-la.
O documento do Iamp resgata um estudo publicado no periódico médico "The Lancet", em 2009, por equipe liderada por Andy Haines, da London School of Hygiene and Tropical Medicine. O grupo conclui que, para cada tonelada de CO2 economizada, os ganhos de qualidade do ar --e, portanto, para a saúde humana-- representariam um benefício estimado em US$ 49, na média.
É verdade que o intervalo da estimativa é amplo demais, vai de US$ 2 a US$ 196. Tamanha dispersão do valor decorre, provavelmente, da incerteza e das muitas premissas adotadas, uma característica comum das projeções relacionadas com mudança climática.
Importa, porém, que o valor seja positivo. Em outras palavras, algumas medidas de contenção de gases do efeito estufa, senão todas, ou a maioria, beneficiariam tanto o clima quanto a saúde e não teriam o custo astronômico alegado por seus adversários.
O que mais se poderia desejar?

Marcelo Leite