segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A conta!



Blog de Josias de Souza

Bocão!



Blog de Josias de Souza

É um sucesso tática do MEC para desmoralizar Enem

É de impressionar o zelo e o custo com que o Ministério da Educação exerce a incompetência ao gerir o Enem.
Convocada, a rapaziada compareceu a mais uma rodada do exame. Uma parte saiu da prova com uma questão irresolvida.
Coisa de múltipla escolha:

Letra A: O MEC faz muito mal todo o bem que faz aos estudantes.

Letra B: O MEC faz muito bem todo o mal que faz aos estudantes.

Letra C: Todas as alternativas alteriores.

A encrenca concentrou-se no sábado (6). A prova trazia questões repetidas. Faltavam-lhe outras questões.
Na folha de teste, a sequência de perguntas era uma. No cartão de respostas, outra. Um espanto!
A encrenca ganhou a web. Tornou-se assunto instantâneo das redes sociais. O MEC foi ao incêndio munido de gasolina.
A equipe do ministro Fernando Haddad (Educação) pendurou no twitter da pasta uma nota ameaçadora e deseducada:
“Alunos que já ‘dançaram’ no Enem tentam tumultuar com msgs nas redes sociais. Estão sendo monitorados e acompanhados. Inep pode processá-los”.
A fogueira subiu. E o time do Inep desceu ao twitter. Dessa vez, munido de uma seringa de água:
“Acompanhamento do twitter: monitoramento do Inep diz respeito a quem dizia utilizar celular durante a prova, e não aos comentários na rede”.
Em entrevista, o presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), Joaquim José Soares Neto, soou satisfeito.
Para ele, o Enem-2010 foi "um sucesso". Como assim? “É um processo complexo e, portanto, passível de falhas. Se houve equívocos, vamos apurá-los”.
O “sucesso” foi tamanho que a OAB aconselhou às felizes vítimas que batam à porta do Ministério Público.
Como parte do êxito, o mandachuva do Inep informou que vai ao ar, na quarta (10), formulário virtual para a requisição de alunos que quiserem reordenar suas respostas.
De resto, o professor Soares Neto disse que pode ser oferecida aos felizardos a oportunidade de uma nova prova, a ser aplicada em dezembro.
No início de 2009, o ministro Haddad anunciara uma bela novidade: o MEC ofereceria à estudantada a oportunidade de prestar dois exames por ano.
Com isso, seria reduzida a TPV (Tensão Pré-Vestibular). Era lorota marqueteira. As provas do ENEM foram furtadas, vazadas e adiadas.
Em 2010, nada de dois exames. O “sucesso” veio de uma única vez. Meses antes, o Inep já havia cavalgado outro lance esquisito.
Descobriu-se que os dados pessoais de 12 milhões de estudantes, que o instituto deveria guardar em segredo, estavam ao alcance de um clique de mouse.
Na ocasião, o professor Soares Neto demonstrara o mesmo desapreço à autocrítica: o vazamento "não afeta de forma alguma a credibilidade do Inep".
De fato, nada parece afetar a “credibilidade” do MEC. Ali, a incompetência é exercida, por vezes, com a máxima competência.

Blog de Josias de Souza

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Assombrações políticas

Férias, visita ao castelo de Vaux-le-Vicomte, nas imediações de Paris. Belo local, jardins magníficos. Pena que pairam sobre ele as eternas assombrações da política, ontem como anteontem, como hoje, no Brasil como na Europa, como no resto do mundo.
O castelo conta a história de Nicolas Fouquet, nobre francês que se torna protegido do cardeal Mazarino, por sua vez tutor de Luís 14, que viria a ser a quintessência do absolutismo monárquico (sim, é a ele que se atribui a frase 'O Estado sou eu', embora haja controvérsias sobre se o rei a pronunciou mesmo).
Mazarino foi o sucessor do cardeal Richelieu e, como tutor do futuro rei, era o governante de fato, o que só serve de lembrança de que a Igreja se mete em política não apenas nas eleições brasileiras de 2010 mas faz um bocado de tempo mais.
Fouquet, o do castelo, foi nomeado superintendente de Finanças e consta que fez razoável confusão entre o Tesouro da França e as suas próprias posses, o que só prova que essa promiscuidade entre público e privado não é invenção brasileira nem recente.
Morto Mazarino, Luís 14 resolve fazer valer a sua frase, tenha-a pronunciado ou não, e assume plenos poderes. Para isso, acha conveniente livrar-se de Fouquet, para o que conta com a valiosa colaboração de Jean-Baptiste Colbert, que bem poderia ser chamado de precursor dos ortodoxos na economia.
Foi ele quem botou ordem nas finanças reais e foi ele também que mais incentivou o rei a defenestrar Fouquet, o que só prova que dossiês, fogo amigo e intrigas politicas não são invenções modernas.
Fouquet acabou preso, apesar de sua popularidade entre os franceses, o que só prova que ficha suja ou suspeita de ficha suja não é impedimento, faz tempo, para que o tal de povo goste de certas personalidades.
Ah, a prisão de Fouquet se deu pelas mãos de um capitão de mosqueteiros chamado D'Artagnan, um dos célebres três mosqueteiros.
Nas paredes do castelo, pode-se ler trovas populares em que se diz que a corda que prendeu Fouquet estava agora à venda e poderia ser usada para prender uma ampla lista de poderosos do momento, a começar pelo seu sucessor Colbert, o que só prova que a tese de que todo político é ladrão, embora injusta, é antiga e disseminada pelo mundo.
Corda, no caso, é no sentido figurado porque Fouquet não foi enforcado, mas condenado à prisão perpétua.
Morreu na cadeia em 1680. A única diferença entre os políticos de 330 anos atrás e os de hoje é que os de hoje não morrem na cadeia. Aliás nem ficam nelas tempo suficiente para morrer.

Clóvis Rossi

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Calma no coração

Janela Indiscreta!



Blog de Josias de Souza

Quimioterapia para a Terra?

Suponha que a atmosfera terrestre esteja doente e que essa doença, o aquecimento global, fosse um tumor (não é boa a analogia, mas serve para falar de terapias possíveis). A melhor estratégia, claro, teria sido a prevenção: fazer exames periódicos de mama e de próstata, a partir de uma certa idade, evitar alguns alimentos e tomar banho de sol só com protetor solar.
O câncer, porém, já se instalou, como o aquecimento global. Quanto mais cedo e diretamente for atacado, melhor. Por exemplo, cortando o suprimento de sangue, como fazem certos medicamentos que tentam conter a formação de vasos sanguíneos que irrigam o tumor e permitem que se espalhe.
É o que se chama, em matéria de clima, de "mitigação". Em lugar de sangue, o suprimento daninho que se deve cortar é o de dióxido de carbono. Com menos emissões de usinas termelétricas a combustíveis fósseis (óleo, carvão, gás natural), do setor de transportes e de desmatamento, o tumor para de crescer.
Caso a mitigação esteja difícil de conseguir, como provou o fôlego curto do Protocolo de Kyoto, pode-se tentar combater o câncer com força bruta. Por exemplo, extirpando o tumor com uma cirurgia.
Aqui a analogia começa a fazer água, porque não há bisturi capaz de arrancar calor (radiação) retida na atmosfera. Mas é possível pensar em intervenções na infraestrutura construída pelo homem sobre a Terra, como preparar cidades e agricultura para um eventual aumento de chuvas e de enchentes, ou a falta delas e as secas. Em matéria de clima, fala-se em "adaptação".
Agora, considere a hipótese de que tudo isso falhe, e que a temperatura da Terra suba mais rápido do que calculamos, sem sobrar tempo nem dinheiro para adaptar a civilização. Resta como último recurso a quimioterapia: empregar munição pesada para tentar matar as células tumorais, ainda que ao custo da matança de células inocentes do doente, como as que mantêm os cabelos, e de um mal-estar terrível.
No que respeita à atmosfera terráquea, esse recurso extremo seria a geoengenharia, ou, como preferem alguns, a climaengenharia (ou, ainda, engenharia do clima). Trata-se de intervenções em larga escala na fisiologia da Terra, capazes de alterar o metabolismo de energia e gases que a mantém em constante movimento - chuvas, ventos, ondas, estações etc.
Um exemplo: a ideia antiga de "adubar" oceanos com ferro, fator limitante para a proliferação de micro-organismos capazes de fazer fotossíntese. Vitaminados, eles se multiplicariam e consumiriam mais CO2 da atmosfera. Efeito similar pode ser alcançado com a plantação de gigantescas florestas: para crescer, as árvores precisam fazer fotossíntese e tirar dióxido de carbono do ar.
Há outras propostas, como pintar de branco os telhados das casas. As cidades de hoje são ciclopicamente grandes, e essa imensa área refletiria mais luz do sol de volta para o espaço (a quantidade de energia devolvida é chamada por climatologistas de "albedo"). Haveria menos radiação disponível para ser aprisionada por gases do efeito estufa e alimentar o aquecimento global.
Não faltam noções ainda mais mirabolantes. Já se falou em lançar milhares de espelhos em órbita, para barrar a radiação solar antes mesmo que chegue ao planeta.
Outro conceito, já defendido pelo Nobel Paul Crutzen, seria injetar na atmosfera nuvens de partículas, em quantidade suficiente para fazer sombra, um pouco como ocorre com a matéria ejetada em grandes erupções vulcânicas, a exemplo do monte Pinatubo.
Assim como acontece com a quimioterapia, o risco é enorme. Um pequeno erro de dosagem pode ter consequências devastadoras para a saúde do doente.
Não seria trivial controlar um crescimento indesejável de micro-organismos marinhos, por exemplo. E sombrear um planeta do tamanho da Terra custaria caro, decerto, bem mais que mitigar a emissão de gases ou financiar a adaptação ao aquecimento global inevitável, já "contratado".
É por isso que muita gente se opõe a essas opções ultratecnológicas, que se alimentam da visão prometeica segundo a qual os males da tecnologia podem e devem ser curados com mais tecnologia. Para esses arautos da harmonia e do equilíbrio, o bom senso indica que sempre haverá efeitos não pretendidos nem previsíveis.
Eles estão com a razão, em seu chamado à cautela. Há muita coisa para ser feita antes de gastar bilhões em coisas de resultado incerto. Mas será que faz sentido descartar de saída a possibilidade de precisarmos de quimioterapia?
De certo modo, foi isso que decidiram 179 países reunidos em Nagoya, Japão, ao adotar na semana passada um protocolo para regulamentar a Convenção da Biodiversidade. Eles optaram por uma moratória de propostas de climaengenharia. A precaução tem algum sentido, pois ajuda a frear a tendência de alguns países, como os EUA, de privilegiar soluções tecnológicas e unilaterais.
Se a moratória implicar interromper ou deixar de financiar estudos em geoengenharia, contudo, podem estar dando um tiro no pé. Ninguém quer fazer quimioterapia. Mas só um homeopata maluco, fundamentalista até a raiz dos cabelos, seria contrário a pesquisar novos medicamentos quimioterápicos.

Marcelo Leite