sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A não-eleição

Sabe a última da eleição? Nem eu.

A maior notícia da corrida eleitoral é a falta de notícia da corrida eleitoral. Ao menos até agora.
O que se previa uma eleição sangrenta depois da Copa do Mundo tem sido um jogo tão insosso quanto os de nossa seleção na África.
Primeiro porque os candidatos principais em muito se parecem. Segundo porque, dada a popularidade do governo, todos dizem amém a Lula. E se Lula é símbolo de muitas coisas do país, é principalmente do consenso em torno do modelo muito mais econômico que político que deu a milhões de brasileiros pobres e a milhões de brasileiros ricos mais dinheiro no bolso e confiança no futuro.
Ninguém vai tirar o país desse caminho, tão óbvio quanto tardio. Nossa democracia demorou a descartar todas as mirabolantes teorias e planos que prometiam paraísos e entregavam infernos. Encontramos estabilidade seminal simplesmente seguindo as regras básicas do capitalismo de mercado. Foi a simplicidade, estúpido.
Tão simples que a população entende bem. E defende. No voto.
Outro dia tive o prazer de conhecer a cientista política Argelina Cheibub Figueiredo num debate da Fundação Educar no Insper-SP. Diante dos jovens alunos, a professora fez uma coisa muito importante: foi contra o senso comum. Defendeu sua posição de que o sistema político brasileiro é muito eficiente, realizando eleições periodicamente com grau muito satisfatório de liberdade e alternância.
A sucessão de eleições livres e eficientes é uma grande realização, inegável. Embora muito lentamente, esse processo parece trazer algum começo de depuração da política partidária, como aponta o movimento Ficha Limpa, essa sim a maior novidade (super positiva) desta eleição.
Com a educação de massas precária que temos no país, é natural que políticos abaixo de qualquer suspeita se elejam e reelejam com facilidade. Mas a consolidação da democracia e seu consenso em torno do modelo econômico fazem emergir essa massa que agora, cidadã porque consome, passará a exigir também melhor educação, saúde, saneamento, segurança... Que virão com políticos melhores.
No final, o verdadeiro salto para o desenvolvimento (e ainda estamos longe dele) virá pela educação. O mercado de trabalho em expansão exige mão-de-obra cada vez mais qualificada, e essa demanda, por força da natureza econômica, viabilizará a oferta.
Ainda investimos nada em educação do que precisamos para dar o salto final. Países como Cingapura e Coreia do Sul deram esse salto investindo muitas vezes mais que o Brasil nas suas escolas, professores e alunos.
A educação já é o novo consenso brasileiro. O que Lula fez ao materializar o consenso em torno da economia de mercado, o próximo presidente precisa fazer em relação à educação.
Voltando às eleiçõeszzzzzzzzz......
Se ela tiver que esquentar, e a propganda na TV certamente trará algum calor, que seja por uma disputa feroz pela melhor proposta para a educação.

Sérgio Malbergier

Somos como dizem que somos?

Janela para o mundo

Informa Vinícius Queiroz Galvão, na Folha desta quinta-feira, que a agência nacional de turismo do Reino Unido divulgou guia em que diz que os brasileiros sempre chegam atrasados, vestem-se de maneira provocativa para qualquer ocasião, interrompem as conversas a todo instante e costumam dar beijos e abraços indiscriminadamente.
Além disso, teríamos "noção de espaço pessoal menor do que outras culturas", o que, francamente, não sei o que quer dizer.
É evidente que o guia comete um erro primário, o da generalização. Se a ciência parece ter comprovado que não há um único ser humano igual a outro, é impossível, cientificamente, que todos os brasileiros sejam iguais uns aos outros --e, por extensão, nos comportemos todos da mesma forma.
Eu, por exemplo, neto de italiano, não posso ter o mesmo comportamento dos meus vizinhos, de ascendência japonesa. Até gostaria porque os dois, o Paulo e a Xica, são maravilhosos.
É de se imaginar, portanto, que a imagem que os britânicos formaram dos brasileiros deve-se ao comportamento de uma maioria, não de todos eles.
Ainda assim, é justo dizer que a maioria dos brasileiros sempre se atrasa? Ou é apenas um estereótipo? Francamente, eu não sei responder, talvez por ter verdadeira obsessão pela pontualidade.
As brasileiras vestem-se provocativamente em qualquer ocasião? Minha resposta é não. Ou, mais exatamente, nem mais nem menos do que mulheres de idades equivalentes de qualquer outra tribo, menos as muçulmanas.
Afinal, a tal de globalização levou a uma uniformidade até chata em um montão de coisas. O vestir é uma das mais padronizadas de todas as coisas. Não é que todo mundo se vista da mesma maneira, como é óbvio. Mas há uma certa padronização entre tribos. Posto de outra forma: descolados ingleses vestem-se mais ou menos como descolados brasileiros ou venezuelanos ou dinamarqueses. Bregas também observam uma certa uniformidade, independentemente da nacionalidade.
Damos beijos e abraços indiscriminadamente? Quando eu era jovem, séculos atrás, não dávamos. Era aperto de mão, abraço no máximo. Hoje, o jeito de saudar é mesmo um beijo no rosto. Mas todas as tribos o fazem.
Lembro-me até hoje de uma entrevista com Iasser Arafat, o líder palestino, em seu QG de Gaza, uns 16 anos atrás. Quando fui a ele apresentado pelo rabino Henry Sobel, Arafat tascou-me um beijo no rosto.
Interrompemos a conversa a todo instante? Só os chatos o fazem, sejam brasileiros, ingleses, italianos, argentinos ou venusianos.
Por fim, é bom ressalvar que a imagem que os brasileiros damos aos estrangeiros tem duas vertentes: uma, a dos turistas, que, nestes tempos de câmbio favorável, andam aos bandos por toda a parte. Outra, a dos brasileiros que vivem no exterior. São, pela mais recente conta do Itamaraty (setembro passado), 3 milhões, quase a metade (1,2 milhão) nos Estados Unidos. A propósito: no Reino Unido, que confeccionou o guia, há o maior contingente de brasileiros que vivem na Europa (180 mil em um total de 800 mil).
Para estes e também para os turistas, um aviso: a Flórida, objeto de desejo de tantos brasileiros, pode adotar uma legislação ainda mais dura que a do Arizona. O procurador-geral, Bill McCollum, também candidato nas primárias do Partido Republicano para escolher quem disputará o governo do Estado em novembro, está defendendo uma legislação que obrigaria a polícia local a comprovar se as pessoas que são detidas estão legal ou ilegalmente no país.
No Arizona, a lei autoriza essa investigação arbitrária. Na proposta McCollum, obriga.
Se os brasileiros, residentes ou turistas, se comportarem da maneira extravagante relatada no guia britânico, serão fatalmente vítimas disso que, no jargão local, se chama de "racial profiling" --ou seja, desconfiar de alguém pela sua aparência (preto ou latino é sempre suspeito).

Clóvis Rossi

Chama da esperança

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Na sala com Alzheimer e Huntington

Informação

Fãs da série "House" na TV paga reviram os olhos em tédio quando os doutores Chase, Foreman, Treze ou Taub --auxiliares do iracundo House-- sugerem realizar mais uma punção lombar para firmar um diagnóstico. Não passa um programa sem que cogitem espetar uma agulha entre as vértebras do paciente para retirar e examinar uma amostra do liquor, fluido que envolve e protege o sistema nervoso, inclusive a medula espinhal.
Agora eles poderão acrescentar mais uma hipótese, o mal de Alzheimer, à lista tenebrosa do que é possível detectar com o exame do líquido cefalorraquidiano. Surgiu um teste que permite dizer, com grande certeza, se alguém vai desenvolver a doença que começa atacando a memória e pode acabar numa demência triste e arrasadora.
Atualmente, só é possível determinar com segurança se uma pessoa teve Alzheimer depois que ela morre, dissecando seu cérebro para verificar a presença das placas de proteínas que o destroem. O novo teste consegue detectar a presença dessas proteínas no liquor.
O exame inovador representa uma faca de dois gumes, porém. Possibilita predizer a degeneração do cérebro, mas não há como impedi-la. Alzheimer prossegue sem cura.
O estudo que comprovou a eficácia do novo exame por punção lombar saiu ontem no periódico médico "Archives of Neurology", ligado à Associação Médica Americana (EUA). Foi a segunda notícia mais destacada na primeira página do diário "The New York Times", e com razão.
Não é todo dia que se desenvolve teste diagnóstico confiável para uma moléstia que aflige uns 35 milhões de pessoas no mundo. O feito foi realizado pelo grupo de John Trojanowski, da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia. Contudo, em entrevista à repórter Gina Kolata, do "NY Times", Trojanowski lançou a pergunta incômoda: "Quão cedo você vai querer rotular as pessoas?"
Receber o diagnóstico de uma doença incurável soa como uma sentença à morte, ou à vida sem perspectiva. Muita gente pode preferir viver sem a informação.
É essa a escolha de muitos filhos de portadores da doença de Huntington, ou coreia de Huntington ("coreia" é uma palavra antiga para designar danças, com a mesma raiz de "coreografia"; em medicina, é usada para síndromes que ocasionam movimentos involuntários e rápidos).
Existe um teste de DNA para predizer com segurança se uma pessoa carrega o gene da doença de Huntington, descoberto em 1993. O problema é que, como no caso de Alzheimer, não há cura para essa degeneração do sistema nervoso central. E ela ataca o portador entre os 30 e os 50 anos.
A dra. Treze, de "House", escolheu não saber. Prefere conviver com a dúvida sobre os 50% de chance de ter herdado o gene da mãe.
Alzheimer é um mal menos cruel, do ponto de vista da idade. Há casos precoces, por volta dos 50 anos, mas o mais comum é manifestar-se depois dos 65. Após os 85, a demência pode afetar mais de um terço da população que tiver sobrevivido à infinidade de outros males a rondar o corpo envelhecido.
No limiar dos 53, com vista e memória começando a cansar, um colunista míope pode encarar como boa a notícia do teste de Trojanowski. Se chegar a ser rotineiramente oferecido em clínicas e coberto por seguros de saúde, consideraria a sério a hipótese de realizá-lo --para melhor conhecer o que o aguarda em matéria de decrepitude.
Se tivesse um parente com Huntington, contudo, nunca teria feito a investigação genética. Uma coisa é saber, aos 20 ou 30 anos, que em uma década estaria reduzido ao espectro dançante da pessoa que foi. Outra, bem diversa, é tentar preparar-se, sem muita esperança, para o que a velhice lhe reserva.
"La vecchiaia è brutta", dizem os italianos, com sabedoria. Só não vê quem não quer.
O leitor, claro, terá outras opiniões a respeito. Essas escolhas todas são muito pessoais. Em princípio e em geral, ter informação é melhor que não ter, mas se podem imaginar muitas exceções à regra.
Ambos os exames, por fim, devem estar disponíveis, pagos pelos planos de saúde, para todos que tenham razões para se acreditar portadores não sintomáticos. Ao médico cabe só a obrigação de esclarecer os pacientes. Nunca, jamais, a decisão sobre virem a conhecer suas chances na loteria biomolecular que chamam --chamamos todos-- de própria vida.

Marcelo leite

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terça-feira, 10 de agosto de 2010